O anúncio dizia: “Troco um ontem arrependido por um hoje usado.”

Na primeira ligação, a proposta foi trocar o ontem por um amanhã prometido. Mau negócio, amanhãs prometidos normalmente são as causas dos hojes frustrados, que acabam virando os ontens arrependidos. Seria trocar doze por meio-dia. A segunda ligação propunha trocar por um anteontem, em bom estado, bem aproveitado, apesar de ser mais antigo. É de pensar, caso não aparecerem hojes até certa hora ligaria de volta para negociar. Outro telefonema, com uma voz distante e cansada, dizia ter um lote de dias, muitos deles horríveis, outros monótonos e, garimpando, poderiam ser encontrados alguns bons. Mas só negociaria o pacote fechado. Arriscado, muitos dias ruins acabam contaminando os bons. Já estava quase no meio da metade do dia, precisava logo de uma proposta aceitável ou correria o risco de amanhã ter que anunciar um anteontem arrependido e um ontem esperançoso. Telefone toca, atende só na terceira chamada para não parecer desespero. A voz do outro lado é animada e cheia de energia, diz não ter interesse no ontem arrependido mas traz oferta bem melhor. Apresenta-se como guru e oferece um treinamento imersivo de mudança de hábitos e paradigmas utilizando quânticas teorias e orientalescas sabedorias.

Nunca mais ontens arrependidos ou perdidos! Bradava do outro lado a afogueada, impoluta e arrebatada voz. A oportunidade teria o módico custo de meio-dia por dia durante um mês. Charlatão. Não há fórmula, magia ou teoria que anime e dê sentido a todos os dias. Alguns serão perdidos, faz parte do ofício de administrar ativos voláteis. É numa boa troca que se recuperam os prejuízos e ganha-se algum lucro.

Nova ligação, desta vez uma voz tranquila dizia que estava em uma longa boa fase de muitos bons dias. Sua sorte lhe causava certa preocupação, pois pelo que observava, a vida possui um rígido sistema de cobrança e não costuma ser tão generosa por tanto tempo.

Preocupava-se que quando tivesse que pagar o preço destes lindos dias, a conta viesse alta demais. Sua proposta era trocar belos dias mais velhos por outros problemáticos mais recentes, na proporção de dois ou três bons por um ruim. Assim poderia acumular alguns débitos e os abater em futuras cobranças vultosas. Também voltaria a sentir o gosto de dias ruins, pois deles já não lhe restava paladar, a ponto de começar a saciar-se apenas com dias ótimos. O excesso enjoa até o doce. O negociante viu que estava diante de rara vida abastada, oportunidade que não se perde.

Assim iniciaram duradoura relação comercial, a vendedora cada vez mais iluminando seus dias pela generosidade e desapego, o negociante cada vez mais ávido, dedicava-se a cavar dias e mais dias para lucrativas trocas, enquanto acumulava grande fortuna de tempo perdido.

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