Às 10:10 é quando vamos para a cama, não necessariamente para dormir, às vezes um seriado, para não pensar, às vezes um livro, para instigar. Às vezes os dois, uma droga que excita outra que acalma, tudo na vida é equilíbrio.
Às 11:11 é quando tudo pode acontecer, até o sono, o que é raro. Pode acontecer o clímax do seriado ou do livro, ou da vida carnal e real. É quando percebemos que temos que viver algo antes do sono, pois nunca nos deram a certeza absoluta de acordar.
Às 00:00 é quando pensamos que precisamos, afinal, dormir, pois o cálculo que dizem saudável das horas de sono já começa a ficar comprometido.
À 1:11 não sabemos se olhamos o relógio, desesperados, ou se sonhamos, desesperados, que olhamos o relógio. É um momento entre mundos, um duro, outro pastoso. Também pode ser o momento de rebeldia, quando passamos setenta e um minutos do ponto crítico, estamos deflorando a primeira hora do dia virgem. Devemos decidir, à 1:11, entre a rendição e a revolta encarniçada.
Às 2:22 somos ensaios de cadáveres, ou de moribundos, para os que roncam. Este é o momento que não nos pertence, o que vemos nesse tempo não nos é permitido lembrar. Não podemos correr o risco de misturar as coisas que acontecem nessa hora, à nossa realidade, não saberíamos mais o que é uma coisa e outra. Os rebeldes dessa hora estão bêbados, ou seja, moribundos, e raramente lembram das coisas dos dois mundos nos quais cambaleiam. E se lembram, o diligente instinto saberá o que não misturar à realidade.
Às 3:33 é quando os pesadelos tiram no palitinho qual deles vai nos atormentar. Às 4:44 é quando o pesadelo vencedor nos dá o cagaço, enquanto os outros, na plateia, aplaudem, aprendem e dão notas.
Às 5:55, de novo, não sabemos se ficamos acordados e olhamos o relógio, ou se sonhamos que estamos acordados olhando o relógio, mas não importa, do jeito que está, está! A lembrança do cagaço do pesadelo aparece, às vezes preocupante, às vezes engraçada. É o momento em que viramos para o lado e sonhamos que temos ainda mais três horas de sono.
Às 6:00 o ritmo é quebrado. Maldita realidade! Nem piano, nem Bach, Vivaldi, galo, sirene ou bip parecem ser coisas com boa intenção, tudo agride. É quando pensamos que já deveríamos ter ganhado na loteria. Sair da cama agora, depois de tudo que vivemos nas últimas horas, deveria ser considerado uma espécie de tortura. Há os que exclamam, nessa hora, alegremente: Bom dia! Como é bom estar vivo! A estes, mandamos à puta que pariu, mais tarde nos desculpamos. Eles sempre entendem.
Às 7:07 o café já nos içou do oceano pastoso e nos jogou no mundo da gravidade. Já não voamos, só o tempo voa. O dia é urgente, e implacável como um assassino, um serial killer de horas.
Os minutos assumem, as agendas chicoteiam, os atrasos ferem de morte e, na loucura, esquecemos a vida.
A vida que parece se esconder no próximo sono.

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