Desde garoto via os pais e irmãos se valerem daquele bálsamo para aliviar as angústias e dificuldades. Precisavam dele principalmente aos fins de semana, mas era comum, às noites, uma dose menor, para aplacar o açoite do dia que passara e para dar a esperança ao dia que enfrentariam.
A vida não era fácil, era o que ouvia o garoto, e ouvia isso também de outros tantos, mesmo os que tinham vida melhor, mesmo os que tinham rodas próprias que os levavam de um lado a outro sem precisar estar apinhado numa lata de sardinhas sacolejante, com os pés pisados e respirando os gases vindos de corpos outros, que se roçavam.
A vida não era fácil para ninguém, era a conclusão lógica do garoto, pois todos reclamavam dela, e seguiam com ela, e todos que ele conhecia usavam de algum tipo de alívio para a alma cansada, tipo o alívio dos pais e dos irmãos, diferiam na prática uns e outros, mas todos buscavam conforto, paz, redenção, uma viagem momentânea para um lugar confortável e sem agruras, e uma promessa.
Ele próprio, podia se considerar usuário, já que estava seguidamente no ambiente, com pais irmãos, amigos e parentes enquanto se purificavam da sujidade do mundo, imergindo em outro, mais belo, mais puro e principalmente, mais justo e prazeroso.
No dia a dia, mesmo entre a loucura da violência, entre a insanidade da busca pelo pão, via, o garoto, referências diversas ao bálsamo. Às vezes era um oferecendo na esquina, às vezes era um adesivo num carro, ostentando códigos conhecidos. Uns outros, mais estranhos e ritualísticos, simplesmente paravam e elevavam aos céus as angústias, prazeres e agradecimentos, como se fossem névoas que saíam de si, onde quer que estivessem, sem pudor. O mais normal, no entanto, eram os encontros de fim de semana, onde o convívio, a música, a glorificação, o eflúvio, iam conduzindo um rebanho inteiro ao êxtase. Desses, o garoto já participara de vários.
Quando o tempo de vida trouxe ao garoto as primeiras doses de coragem, antes e generosamente trazendo-lhe as primeiras angústias, experimentou sozinho.
Foi redentor, pacificador, as ânsias e dúvidas foram absorvidas por algo mágico, e, inesperadas coragem e euforia o tomaram de assalto. Sem os pais, irmãos e amigos por perto, pôde falar cara a cara com o universo. Estava seduzido, não viveria mais sem o bálsamo, viveria por ele.
A medida que deixava de ser garoto, aprofundava-se mais, a prática era quase diária, experimentava e conhecia novos grupos e novas formas de acessar uma consciência mais elevada, mergulhando em si mesmo. Logo estava sendo um disseminador e já tinha os que o procuravam em busca do bálsamo. E como se tanto fosse pouco, viu a oportunidade e ouviu o chamado do seu destino, viveria daquilo e por aquilo.
Agora não tinha mais volta, era um desses que vão todos os dias ao culto, pregam vigorosamente e oferecem a salvação nas esquinas.

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