Você tem família, que te dá suporte. Tem um trabalho, que, mal ou bem, paga as contas. E tem saúde suficiente, e energia e esperança suficientes para brigar por uma vida melhor. Tem até o curso pago pela empresa.
Teus parentes não tentam se matar, ou te matar, não estão presos. Tem um tio alcoólatra, mas até que ele é divertido. Você tem que pegar um ônibus pro trabalho. Uma hora de busão pensando em quando será contemplado no consórcio, pensa na promoção que virá depois do curso, e no dinheiro do lance pra pegar o tão sonhado veículo automotor.
Você é esse cara, que tem todas essas ou outras possibilidades, não são perfeitas, mas vai levando. Se teu salário não for pago, se teus benefícios forem ignorados, tem a lei, o sindicato, tem um jeito. Tem até o plano de saúde em grupo.
E se você for pequeno empresário, tem a negociação, a margem de lucro, o marketing, a associação, a parceria, a indicação daquele amigo bem posicionado na empresa, o custo fixo que dá pra apertar, o cheque especial, o gerente do banco amigo. Tá difícil, mas tem um jeito.
Vamos chamar esse acervo de jeitos, possibilidades e recursos de “armadura social”.  A gente desenvolve, remenda e fortalece essa proteção na medida da experiência, da troca de favores, das parcerias e relacionamentos.
Se, mesmo alguns que têm essa armadura social, quando expostos a um lucro fácil e ilícito, o aceitam, o que esperar de quem está nu?
Se, quando os animais de estimação ficam velhos, doentes ou dão cria porque você não pagou para castrar, você os descarta na estrada, para que morram atropelados, de fome ou frio, você, que tem a armadura, cede ao hábito de se livrar do que dá trabalho, como condenar o pelado social que abandonou a lei e os seus?
Se você, bem protegido pela couraça, prefere ficar silente diante do troco a mais no seu bolso, enquanto reclama aos berros o erro a menor na sua conta, como condenar o morto de fome com os ossos expostos, que furtou um pacote de massa?
E o senhor armadura social, que comprou aquele som pro carro, do “amigo da Robauto”, e reclama da onda de roubos promovida pelos pardos pelados sociais.
De dentro da polida couraça, saca e atira “bandido bom é bandido morto”  e quando guarda de volta no coldre as palavras, ainda carregadas, se locupleta com algum prazer ilegal.
O que esperar dos nus, senhor armado de armadura, se você, que não precisa, comete?  Como condenar, com moral, quem comete por necessidade ou desesperança?
Não! Não estou defendendo a desonestidade e o roubo, não estou amenizando culpas, aqui o papo é esse que fingem não entender e se esforçam em distorcer: a desonestidade dos pontos de vista, os relativismos, as condenações seletivas, as reduções cognitivas.
Vamos tirar a armadura em frente ao reflexo da consciência. O que veremos ali?

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