Ela fingiu que não ouviu, era apenas uma ofensa, como tantas. O pessoal anda meio nervoso esses dias, se pelo menos os ônibus não atrasassem todo dia eles estariam mais tranquilos. E esse calor? Deixa qualquer um ruim dos ânimos. Pelo menos na casa da dona Ofélia iria trabalhar no frescor por alguns minutos, nunca desligavam o ar condicionado nas peças que os patrões estavam. Pena que, na maior parte do tempo, o trabalho era no pátio, na cozinha, na área de serviço, onde o calor não daria trégua. Mas tudo bem! Estava ganhando seus troquinhos.
Ela fez que não sentiu a passada de mão do patrão quando ele foi pegar um café. Era apenas uma dessas coisas de homem, como as que fizeram agora há pouco, aqueles outros homens, no ônibus lotado.
Por isso ela sempre procura usar roupas comportadas, os homens têm essa dificuldade de controlar seus furores e uma vizinha mais instruída tinha lhe dito que tem a ver com uns hormônios. Às vezes incomoda se sentir um pedaço de carne, mas a gente vai levando.
Na volta para casa, teve a sorte de ir sentada. A moça bonita com rosto cansado ao seu lado ficou o tempo todo falando de homens sem carinho, de meninos apressados, de senhores adúlteros, de velhos tarados. Ouviu, balançou solene a cabeça, apertou um pouco os lábios, mas não se compadeceu, eram apenas lamentos.
Em casa, ela fingiu que não doeu o tapa do marido. Era apenas estresse e um pouco de bebida. Além do mais, ele não tinha muita noção da própria força. Passar o dia na lida com tijolos, pedras e cimento deixa o corpo bruto, as mãos com tantos calos esquecem como se faz carinho. Se pelo menos ela não tivesse atrasado a janta, se pelo menos ela não tivesse deixado acabar o gás, se pelo menos ela tivesse feito o filho parar de chorar… se pelo menos, ela fosse uma mulher melhor.
Em oração ela já pedira tantas vezes tão pouco. Apenas uma oportunidade melhor, apenas uma sorte pequena qualquer, não precisava ser para ela, podia ser para o marido, ele saberia lidar melhor com alguma bênção, saberia qual a sua parte na sorte. E se não fosse pedir muito, um futuro, não para ela, para o filho que ainda brincava nos braços da inocência. Uma hora Deus olharia para aquele canto de mundo, sabia que Ele estava lhe dando paciência e calma e tudo viria no tempo e na medida certa.
Na cama ela sentia o suor e o arfar dele às suas costas. Com o rosto apertado pela mão grossa no travesseiro, sentiu cheiro de mofo. Tudo certo, era apenas sexo, e essa umidade que ficava na casa fechada durante o dia. Antes de dormir, percebeu algo escorrendo de seus olhos, eram apenas lágrimas.
No fim de semana ela não entendeu como as coisas ficaram daquele jeito, tão rápido. Sentiu os socos, a estocada e aquele caldo grosso e quente saindo do seu corpo. Tudo bem, era apenas sangue.

Compartilhar

Deixe seu comentário