“O putedo tá todo alvorotado!” – Fez uma pausa dramática, segurando o riso, e logo explodiu numa gargalhada que que fez os orgulhosos bigodes gaúchos vibrarem.
Acho que ele era aposentado, nunca perguntei, mas como ficava todos os dia ali, na frente do seu pequeno apartamento, em plena rua principal, de bombacha, alpargatas e o inseparável chimarrão, deduzi.
Ele sempre tinha um comentário jocoso sobre as coisas que observava durante seu plantão. Daquele jeito grosso, tinha certa sabedoria. Sem o verniz do conhecimento, as personalidades permanecem rústicas.
Era a época da implantação do Pólo Petroquímico na região e, quando parei para puxar assunto e tomar um chima, comentei que a cidade estava mais movimentada naquela sexta. Ele disse que era dia de pagamento, a peonada do Pólo iria subir em peso pra zona, já que não havia outras opções de “baile” na cidade.
Daí o “alvorotamento” das profissionais do entretenimento íntimo.
“Desceu um bando de china, tudo colorido e fazendo fiasco. Não tem uma loja que não entram. Parece um bando de gafanhoto. A loja de calcinha, acho que não tem mais estoque!”
E logo veio a risada, tão escancarada que dava para ver a cárie do molar.
Eu o via como um personagem. Aquela forma peculiar e direta de ver o mundo era divertida, exagerada e sempre tinha uma verdade mesclada à ironia. As doses de preconceito seriam intragáveis nos dias de hoje, mas na época era tão normal quanto ir na zona e passar na farmácia três dias depois.
Não lembro o seu nome, nem sua história, só sei que sumiu do seu posto de observação da vida. 
Fico imaginando os comentários que faria hoje, nesses tempos em que todo mundo está “alvorotado” o tempo todo. O espírito irônico afiado e o sarcasmo sempre alerta eu gostei e peguei, sigo fazendo o polimento periódico com aprendizado e arte para que minhas observações se distanciem da ofensa tosca. Isso exige plantão duplo, um para fora, outro para dentro. Não há garantias, sempre se ofende alguém.
O alvoroço não é mais exclusividade dos dias de pagamento nem das vulgívagas e seus clientes, ele vai se intensificando na medida que as cidades crescem. Grandes centros, grandes alvoroços.
Nesse clima de urgências e concorrência constantes, prosperam a impaciência, o cansaço, a falta de perspectiva, a desonestidade, a desconfiança, a ignorância. Muito fácil sentir-se ofendido quando se está no limite. Muito fácil ser violento quando se está no limite sentindo-se ofendido.
É preciso ter os momentos pro chima, para a reflexão, para o conhecimento curioso, para a arte. Momento para lembrar que somos animais e humanos no mesmo corpo. Ou como diria meu amigo bigodudo: “Vamo baixá a bola aí, putedo!” – Eu jamais diria uma coisa dessas.

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