Recebo doações de livros, faço um trabalho de “casa de passagem”, doando-os e distribuindo. Essa iniciativa começou com um grupo de amigos. Tentamos fazer algo maior, mas não vingou, como não vingam todas as sementes que lançamos ao solo. Naquele plantio inicial, muitas ideias e bons papos foram trocados e a mim coube recolher, guardar e selecionar os livros doados para, no futuro, criar uma biblioteca ambulante.
A vida foi exigindo a energia de cada um para suas prioridades. Não é uma crítica, é um balanço. É assim em muitos casos: sonha-se lá, realiza-se aqui. Sei que cada um que se reuniu faz acontecer, do seu jeito e no seu tempo, um pedacinho daquele sonho grande. Tenho a sorte de ter pessoas desse naipe por perto.
A pilha de livros acumulava-se no quartinho e, cada vez que entrava lá, parecia ouvir a angústia de tantos autores abandonados. Decidi dar-lhes atenção e destino. Que gratas surpresas!
Saramago, Camus, Thomas Mann, Hemingway, Aldous Huxley, só para citar alguns dos grandes monstros que estavam entre tantas outras pérolas. Não resisti, separei alguns para ler antes de doar.
Nunca tinha lido Hemingway, sabia de sua vida e peso na literatura. Ali estava “Adeus às armas” , um livro sofrido, edição de 1966, sem contra capa, páginas soltas, a última estava decepada e encartada no miolo, como um ferido de guerra que se arrasta carregando o braço arrancado. Guerra, que é o pano de fundo dessa história de amor e dor.
Hemingway é bastante descritivo, nos sentimos nas paisagens italianas, nas casernas, nos escombros, na lama, na chuva, nos quartos de hospitais e hotéis, bebemos com as personagens os conhaques, vermutes e comemos pasta asciutta fria e queijo verde sujo de terra com as mãos, na casamata, um pouco antes do morteiro que irá nos atingir.
Nessa tradução de Monteiro Lobato, algumas frases e diálogos lembram dublagens de filmes antigos. Imagino que Monteiro Lobato não quis contaminar a narrativa com nosso típico português. Encomendei “O velho e o mar”, outra tradução, da obra considerada o canto do cisne do autor.
Pode- se perceber a “teoria da escrita do iceberg”, criada por Hemingway. O autor revela uma pequena parte da narrativa, mas há algo sob a superfície que o leitor deve apreender ou imaginar. “O escritor deve dizer a verdade e calar sobre tudo que não pode ser dito.”
É uma história de amor em meio à insanidade da primeira guerra mundial, personagens que buscam um sentido para a vida nos prazeres sensoriais. Já o mundo em que vivem carece de sentido, prazeres e belezas. Isso explica as detalhadas descrições de tudo. Mergulhar nos detalhes para não ver um todo, que é horrível.
Levei o livro à enfermaria. Colei com fita as páginas soltas, arrumei a lombada com mais fitas, dei-lhe uma prótese para a contra capa. Não ficou bonito, mas tive que cuidar como pude do sobrevivente de uma longa guerra contra o tempo e a ignorância.

Compartilhar

Deixe seu comentário