Como ele foi parar nesse vazio? Estava tudo tão bem e de repente, desespero. Onde está a minha vida? Onde estão todos?  Se pergunta, em vão. Oh! Deus, por que me abandonaste? O que Te fiz?

O frio e a escuridão o envolvem, não há lugar conhecido. Os ruídos, os movimentos, flashes e cheiros, é tudo tão estranho e desesperador. Tenta caminhar, procurar seu lugar. Mas, e se meu Deus quiser que eu fique aqui? E se esta é uma provação? A dúvida é mais uma tortura. A respiração fica pesada, há uma bomba em seu peito. Treme, não controla a urina. Está em surto, precisa de um canto para pensar. Encolhe-se. Sai da vista e desses ruídos intermitentes e estranhos.

Lembra de sua felicidade, de tudo que lhe foi concedido. Seu Deus lhe foi tão bom e generoso até agora. As brincadeiras na infância e na adolescência, os momentos junto dos seus, um lar quente e quase sempre tranquilo. A família é ruidosa, mas são ruídos bons. As brigas duram pouco e logo fica tudo bem. As manhãs são sempre parecidas e há felicidade no dia inteiro, abraços, carinhos. Seu Deus e seus Santos são tão generosos. Às vezes ele fica só olhando para tudo. É o olhar do agradecimento.

As boas lembranças não duram, a realidade, dura, o desperta. Frio, fome, saudade lancinante. O que poderia ter feito para merecer isso? Por que todo esse horror agora? Por quanto tempo estou aqui? Eu me corrijo! Vou melhorar! Volte, vida, volte por favor. Não aguento esse inferno! Porque o mereço? 

Essa angústia lhe sobe a garganta e quer sair como súplica e prece, mas é um urro. Um urro porque tudo é dor.
Como se não bastassem todas estas dores da alma, vêm as do corpo. Há muito o sol se foi, há muito sente essa dor no estômago, treme sem controle. Talvez esteja na estrada para o inferno, ou um purgatório, para depois merecer o paraíso. Não lembra bem como foi parar ali, tudo de repente. Lembra do passado bom e no outro instante, isto!

Precisa fazer algo. Reagir! E se os seus estiverem precisando dele? E se o seu Deus precisa que faça algo? É sua vez de ajudar. É isso! Somos uma família, um cuida do outro. Algo aconteceu e eu preciso ajudar.

Ter um propósito aplaca as dores e o desespero. Uma missão vem como uma bênção. Energia e coragem brotam não se sabe de onde e ele se põe em movimento, busca a lucidez para buscar sua vida de volta.
Será um herói – imagina – encontrará sua família que experimenta o mesmo desespero que ele, os salvará. Mostrará coragem e perseverança, seu Deus ficará orgulhoso.

Vencendo o frio e a escuridão daquela estrada para o inferno, tenta reconhecer sons, vultos, lugares, cheiros. Caminha, corre, procura. Acostuma o olhar e, num instante, a luz que cega, o impacto e mais, muito mais dor.
Agora grita e se contorce, seu membros não funcionam, arrasta-se como pode e cai. Um silêncio e uma espécie de paz começam a surgir, já quase sente nada. Deitado, vê, no delírio que é tudo que lhe resta, seu Deus vindo correndo e alegre, com a guia de passear na mão. Morre só, abanando o rabinho para a lembrança daquele que o abandonou.

Deixe seu comentário