Dois peixes jovens encontram-se com um peixe mais velho, que nada na direção contrária. Este cumprimenta-os com a cabeça e lhes diz: “Bom dia, rapazes, como está a água?”. Os dois peixes jovens nadam mais um pouco; depois um olha para o outro e pergunta: “Que diabos é água?”.
Essa historinha é usada pelo professor de literatura italiana Nuccio Ordine Diamante, em suas aulas, e para falar de seu livro “A utilidade do inútil”, lançado no Brasil em 2014.
Se substituirmos a água dos peixes por cultura teremos trazido a historinha para o nosso habitat.
A literatura, as artes, os saberes humanísticos e científicos, a busca pelo conhecimento estão nessa água primordial e só nela podem sobreviver e se desenvolver a democracia, a liberdade, a justiça, a laicidade, a igualdade, o direito à crítica, a tolerância e a solidariedade. Nadamos nela e muitos nem se dão conta.
Nossa água está bem suja. Corrupção, lucro a qualquer custo, a beleza via filtros, o estudo visando apenas a carreira, a arte atada ao entretenimento raso. Tudo visando única e exclusivamente o sucesso, e o sucesso reduzido ao dinheiro.
Segundo o autor, “uma água virulenta, que espalha violência gratuita. Uma água que sepulta a arte e a cultura de invenção, em troca da “beleza fácil” e dos critérios comerciais na vida artística e cultural.”
Ele falou isso em 2014…
“No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que uma poesia, uma chave inglesa mais que um quadro, porque é fácil entender a eficiência de uma ferramenta, mas vem se tornando cada vez mais difícil entender para que servem a música, a literatura ou a arte…”
Estes saberes considerados inúteis, porque não produzem lucro, é que estimularam pensamentos criativos, nutriram mentes críticas, olhares para além dos muros, movimentos civilizadores e o nosso tão querido avanço tecnológico. Quando a mediocridade sequestra a arte, produzindo apenas entretenimento tosco, e quando o obscurantismo amordaça a educação, desensinando, o resultado é uma legião de ratinhos manipulados pelo medo e estimulados pelo fútil.
Em breve, o ano letivo vai iniciar, os professores, nossa brava infantaria na batalha contra a ignorância, sentirão mais uma vez os efeitos tóxicos da água suja. Mas há esperança e esforço, tem que haver, senão o que teremos serão mentes que não saberão usar nada além de martelos, facas e chaves inglesas.
E o dinheiro? Não traz felicidade? O dinheiro compra uma forma de liberdade, o conhecimento outra. Não há felicidade sem liberdade. Com dinheiro e sem conhecimento, há uma liberdade festiva, vendida como felicidade. Com dinheiro e com conhecimento, há a liberdade criativa, que me parece ser a felicidade autêntica. Como chegar nessa fórmula mágica? Só através do conhecimento.

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