Em 2011, um fotógrafo de natureza em viagem à Indonésia teve uma ideia: conviver com uma espécie de macacos por alguns dias e fazer algumas fotos. Até ser aceito, apanhou de um macho, dormiu no mato, inclusive coberto por filhotes dos símios. Ganhando a confiança da macacada, o fotógrafo deixou uma câmera num tripé com um botão disparador para ver o que os bichos fariam. A macaca batizada como Naruto acabou fazendo algumas selfies. As imagens rapidamente ganharam a internet e o fotógrafo começou a ganhar algum dinheiro com direitos autorais. Com a viralização, a imagem foi parar no acervo de domínio público da Wikipédia e, a partir daí começou uma bizarrice jurídico-primata. O fotógrafo entrou na Justiça exigindo direitos autorais pela imagem e a organização pela defesa dos animais PETA entrou com uma ação contra o fotógrafo, alegando que a imagem pertencia à macaca e a renda deveria ser revertida para a causa animal. O caso ganhou manchetes, polêmicas e até um programa de TV.

Esta história levantou algumas questões na minha cabeça primata:

– O equipamento era do fotógrafo, ele o manteve ajustado às condições de luz da floresta durante todo o tempo, mas a macaca é quem fez o clique da sua própria cara. Quem é o dono da foto?

– Os macacos estavam tranquilos, comendo bananas e uns aos outros, o fotógrafo invadiu a intimidade e estressou os bichos com o objetivo de usar as imagens. Isto vale alguma indenização?

– O fotógrafo pode entrar com uma ação pela lei Primata da Penha por ter apanhado de um macho de outra espécie?

– Os macacos podem processar o fotógrafo por simiofilia, já que ele dormiu com filhotes?

– A PETA não estaria mais interessada na publicidade que o caso gerou do que na causa?

– Se um macaco puder processar um humano, não abre um precedente para toda a fauna nos processar pelos danos que temos causado aos animais?

– Caso animais nos processem, não seria conflito de interesses serem defendidos por advogados humanos?

– Animais estão fazendo selfies, isto não é evidência do final dos tempos?

O fotógrafo faliu, não tinha dinheiro nem para passagens aéreas que precisaria para acompanhar o caso. Os macacos não fazem a mínima ideia do que está acontecendo. Isso tudo me lembra um fenômeno que ocorre periodicamente com nós, humanos inteligentes.

De tempos em tempos, aparecem umas pessoas, nos convencem de que precisamos apertar uns botões em uma maquininha para que nossa vida melhore.
Apertamos um conjunto de teclas, pois somos inteligentes, aparece uma foto que não é nossa, confirmamos. Depois disso não somos donos do resultado, das decisões, dos recursos nem do futuro. Apenas voltamos para a floresta para comer bananas e uns aos outros.

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