Democracia das Dores é uma jovem mãe solteira, cujo filho, Eleitorzinho das Dores, é carente de pai e está crescendo em ambiente conturbado. A carência de Eleitorzinho faz com que o guri se apegue a qualquer cara sorridente e cheio de promessas. E há muitos, todos sempre querem muito bem a mamãe. O primeiro papai que ele lembra era tipo um ditador bonzinho. Deu uma organizada na casa, um trato na autoestima da moçoila e, quando ia tudo bem, se matou. Foi um choque. Ainda bem que o melhor amigo do falecido ficou uns tempos prestando consolo, chamavam ele de café. Era liberal pra época, mas, sendo café, esfriou rápido. Depois mamãe teve dois namoricos, um de três dias e outro de três meses. Daí veio o Tio Juju, um homem ativo e moderno. Democracia dizia que ele era rapidinho, parecia que queria viver 50 anos em 5. Tio Juju fez uma boa reforma na casa e comprou o primeiro carro da família. Foram anos dourados. É lindo como o amor acaba e se renova e como a mamãe é eclética. Mal terminou com Tio Juju e veio o Tio JanJan. Um cara esquisito, parecia aquela máscara óculos-nariz-bigode. Era nervoso, pernas tortas, vivia discursando e tinha mania de limpeza, sempre com uma vassoura na mão. Um dia, saiu bem louco de casa e nunca mais voltou. Mamãe Demo detesta solidão e, para curar o trauma do abandono, teve um casinho com um cara que nem ela lembra direito. Cansada de aventureiros e revolucionários, os fardados começaram a lhe chamar atenção. O primeiro foi o Tio Castelo, mal chegou e já colocou baderneiros pra correr. Mamãe curtiu o pulso firme e a dureza do caráter. Um dia Tio Castelo foi visitar uma tal de China e mamãe chamou aquele outro tio que ninguém sabe o nome para uma visitinha. A vigorosa moça se atirou com tudo nos romances militares, agora, quanto mais linha dura, melhor. Primeiro veio o Tio General (ele proibiu Eleitorzinho de chamá-lo de Tio Costa), encheu a casa de regras e grades, era muito irritado, acabou tendo um derrame. Mamãe estava impossível, chamou três militares de uma só vez para uma festinha, ousadia para a época, o ano era 1969. Logo depois vieram Tio General Emílio, Tio General Ernesto e Tio General Figueiredo. Um de cada vez, desta vez. Foram relacionamentos duros e duradouros. A jovem vivia trancada em casa, dizem até que apanhava, outros dizem que gostava. Passou a fase da farda e Democracia, agora uma moça mais vivida, queria relacionamentos mais tranquilos. O primeiro teve uma dor de barriga e morreu antes da lua de mel. O Tio Bigode veio dar a notícia e foi ficando. Nesta época, a família tinha pilhas de dinheiro inútil em casa e uma tabela de preços colada atrás da porta da cozinha. Agora começa a fase “novela mexicana” desta história. O próximo capítulo, só semana que vem.

Gerson Kauer
Publicitário e escritor

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