A criação e a distribuição de notícias falsas para prejudicar candidatos a prefeito e a vereador é uma chaga antiga da política brasileira. Antigamente, o método mais comum era a produção de panfletos anônimos, desovados às vésperas do pleito para que o “alvo” não tivesse mais tempo de se defender e reverter o prejuízo à imagem. Com a tecnologia, os métodos foram adaptados e aperfeiçoados. Hoje, as fake news são tantas que se tornou quase impossível separar verdades e mentiras. E fica ainda mais difícil quando informações reais são desvirtuadas para criar um contexto falso.

É o que acontece com um vídeo disponível nas redes informando que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adotará votos online nas eleições deste ano. Segundo a autora, o TSE preparou “uma surpresinha” para a disputa do dia 15 de novembro: a possibilidade de votar pelo computador ou pelo celular. “É o fim das urnas eletrônicas e o caminho para que os votos estejam online”, diz o vídeo. “Parece conspiração, parece história de filme, mas é a realidade. (Estamos) entregando o domínio, entregando informações, deixando tudo nas plataformas digitais e online.”

A peça usa informações verdadeiras, divulgadas pelo TSE neste mês, para criar uma notícia enganosa. O tribunal não anunciou o fim das urnas nem adotará voto online para esta eleição. O que o TSE divulgou, no final de setembro, foi um edital para um projeto chamado “Eleições do Futuro”, que chamou empresas para apresentarem propostas de “soluções de evolução do sistema eletrônico de votação”. O objetivo é iniciar “estudos e avaliações para eventual implementação de inovações” — e não, como diz o vídeo, acabar com as urnas eletrônicas e instituir o voto online, “como surpresinha”, já para essas eleições.

A fake news viralizou rapidamente, obrigando o TSE a emitir um desmentido, cujo alcance, infelizmente, será bem menor. É como abrir um travesseiro de penas na ventania. Não há o que fazer, a não ser tentar minimizar os danos. O foco do vídeo é o quanto a tecnologia de voto online afetará a segurança do sigilo. Este, no entanto, é o principal critério para a adoção de uma nova ferramenta. Para o tribunal, os programas apresentados precisam preencher três requisitos: identificação do eleitor por biometria digital ou facial, sigilo de voto e ter mecanismos de auditoria.

O episódio reforça a necessidade de adoção de medidas mais rigorosas para conter a desinformação. As pessoas não estão se dando conta do risco que as fake news representam para a própria Democracia. Hoje basta o mínimo conhecimento em tecnologia e o domínio de programas de edição de imagem e voz para transformar qualquer pessoa em santo ou diabo. Neste contexto, é cada vez mais difícil fazer as escolhas sem ceder à manipulação. Obviamente, há interesses por trás disso e certamente não são os da maioria da população.

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