A inspiração para o tema de hoje veio de um sábado pela manhã, quando encontrei um querido colega, que começou a conversa me cumprimentando ou comentando, não sei bem, sobre minha recente aposentadoria no consultório. E conversa entre médicos sempre teve o viés de, em pouco tempo, derivar para assuntos da medicina, como se fôssemos seres limitados e incapazes de falar sobre outros assuntos. E o tema do momento não podia ser outro: Covid-19.

Relatou o comentário que ouviu de um paciente, em termos mais ou menos assim “Pois é. Vocês médicos não chegam a um acordo. Uns dizem uma coisa e outros dizem outra.”
E é exatamente esta frase que me inspirou. E sobre ela vou escrever mais um pouco.
Nos meus tempos de estudante de medicina , na antiga Faculdade de Medicina da UFRGS, bem na extremidade do Parque da Redenção, havia um espaço em que, às vezes, passávamos horas. Era a Biblioteca. Um enorme salão, iluminação discreta, silêncio, grandes prateleiras e muitos livros, mesas e cadeiras, poltronas confortáveis. Tirando aulas, laboratórios, hospitais, pacientes, etc… era nos livros que estudávamos. E por muitos anos, continuou assim.

Era um tempo em que o conhecimento evoluía de forma bem mais lenta. Um tratado de Medicina, com centenas de páginas, podia levar anos para ser escrito. Representava um conhecimento consolidado, escrito pelos mais renomados de cada área. E o livro se mantinha atual por muitos anos, até nova edição atualizada .

As condutas do médico eram pouco ou nada contestadas. Para o paciente, o médico sabia, e o que decidisse era o que devia ser feito.

Faço agora uma pausa , e dou uma guinada. Recuo aos primórdios da história e recorro ao mito bíblico da Torre de Babel.

Após o dilúvio, os homens falavam a mesma língua e se entendiam muito bem. Em dado momento, os descendentes de Noé resolveram construir uma grande torre, tão alta que chegasse ao céu. Mas Deus os castigou, confundindo-os na sua linguagem, de forma que não se compreendessem mais uns aos outros. E desde então Babel passou a ser sinônimo de confusão e a simbolizar o castigo divino sobre a arrogância, o orgulho e o paganismo humanos.

Fecho o parêntesis e volto ao raciocínio inicial.

Há anos deixei de comprar livros para estudar, mesmo continuando a estudar. Nem sei se as atuais faculdades de medicina tem ou precisam de bibliotecas.

A Internet põe na palma da mão o que é postado no mundo, em tempo real. São milhares e milhões de publicações e informações. E acessíveis a todos. E não é nenhuma surpresa um paciente consultar já muito mais informado do que o próprio médico, sobre um assunto de seu particular interesse.

A maravilha tecnológica da Internet foi um dos maiores avanços. Mas o excesso de informações, como agora, sem um processamento e uma interpretação adequadas, chega a ser intoxicante. E quanto mais informações, mais confusão. A maioria dos médicos já não estuda mais em livros, por obsoletos, mas por meios digitais . E as redes sociais vão repetindo e multiplicando conceitos e informações conflitantes, de fontes nem sempre confiáveis. Sem contar com grupos que se digladiam, até mesmo em assuntos médicos, como donos da verdade, mas prenhes de preconceitos e intolerância.

É a nova Torre de Babel, versão século XXI, que nos deixa cada vez mais perdidos, confusos e sem referências. Até onde vamos chegar? Que os deuses nos apontem os caminhos e nos iluminem os pensamentos, porque a Ciência ou as pseudo-ciências já estão nos confundindo demais.
Grande abraço.

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