Chico e Vinícius compuseram uma música de uma nostalgia e de uma beleza que poucos poderiam compor. “Tem certos dias em que eu penso em minha gente, e sinto assim todo meu peito se apertar. Porque parece que acontece de repente, feito um desejo de eu viver sem me notar. Igual a quando eu passo no subúrbio, eu muito bem vindo de trem de algum lugar, aí me dá como uma inveja dessa gente, que vai em frente sem nem ter com quem contar. São casas simples com cadeiras na calçada, e na fachada escrito em cima que é um lar. Pela varanda flores tristes e baldias, como a alegria que não tem onde encostar. E aí me dá uma tristeza no meu peito, feito um despeito de eu não ter como lutar. E eu que não creio, peço a Deus por minha gente. É gente humilde, que vontade de chorar”.

Uma primeira análise poderia concluir que alguém bem situado na vida se dá conta que existem outros que tem menos, e mesmo assim são felizes. Fica com pena , e mesmo ateu, reza. Mas não pergunta pelas causas da desigualdade, que podem ser muitas, nem o que fazer para reduzí-las. Não faz crítica social.

Também não vou abordar este aspecto, mas questionar ou me questionar se há de fato, e até que ponto, uma relação linear entre riqueza e felicidade. Muitos dirão que o dinheiro não traz felicidade, mas que dá uma baita ajuda, ou que é melhor ser infeliz com dinheiro do que feliz e pobre. Embora felicidade seja um valor subjetivo, difícil de definir e de medir, a falta de um mínimo de condições materiais dificilmente poderá permitir alcançar um estado, que o senso comum entende como felicidade. Mas com certeza não é tudo, e as pessoas, por diferentes que são, reagem também de modo diferente.

Penso que a percepção de felicidade, ou plenitude, ou realização, pode ser devida a dois fatores principais. Vamos ver se concordam. Em primeiro lugar, a diferença entre o que se tem e o que se ambiciona ou almeja. E não apenas em relação a bens materiais, mas a tudo aquilo que possa ser importante na vida: prestígio, poder, conhecimento, cultura, reconhecimento. Alguns, por pouca ambição, mesmo tendo pouco dirão: tenho tudo o que preciso, não me falta nada. E por isto, sentem-se felizes. Outros, tendo muito mais, mas com ambições também maiores, sentem-se frustrados, talvez ressentidos e infelizes. Quanto mais conquistam, mais querem ter.

Se o mundo progrediu, certamente é porque em todos os tempos houve alguém que quisesse um pouco mais, que pensasse em ir mais longe. Ambição de menos pode ser sinônimo de acomodação. Ambição de mais, de frustração e infelicidade. Calibrar expectativa e realização talvez seja um difícil e importante desafio para cada um.

E o segundo fator a considerar talvez seja a comparação entre o que se tem e o que os outros tem. O ditado “em terra de cego quem tem um olho é rei” parece bem adequado para a tese em debate. A casa em que vivo em Montenegro aqui não representa nenhum diferencial; diferente do que seria se localizada numa das tantas pequenas e pobres cidades deste Brasil imenso. Mais uma vez é uma moeda de duas faces. De um lado, estimula uma certa competição, que faz com que cada um faça e se esforce um pouco mais. Mas quando exagerada, causa também frustração, e quem sabe inveja. Mesmo tendo muito, sempre haverá quem tem mais. É fácil de ver, porque estão a nossa frente. Mas dificilmente notaremos os muitos que tem menos, e que vem atrás de nós.

Difícil entender o bicho homem, não acham? Complicamos demais… Será por isto que psiquiatras e psicólogos tem suas agendas sempre mais lotadas?

Um grande abraço

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