Começo por invocar uma parte de TROPA DE OSSO, bonita canção do inspirado Luis Carlos Borges:
“Surge uma nuvem de lembranças andarilhas / Vai repontando para dentro do meu peito / A minha infância com seus ossos em tropilhas / Tinha mangueira, companheiro, bem cuidada. / Tinha piquetes e um campo onde invernava / A minha tropa era de puro pedigree. / Toda de ossos descarnados que campeava”.

Embora criança rural, não fui criado na campanha. Por isso, a tropa de osso não fez parte da minha infância. Mas fiz e brinquei com bois feitos de sabugo de milho e alguns pedaços de arame, com que se faziam chifres e patas. Brincava-se também de andar em pernas de pau, dirigir um arco de barril guiado por uma haste de arame, carrinho de lomba, pular sapata, pular corda, jogar bulita ou pinica, e cinco marias. De esconde-esconde , pega-pega , passar anel, ovo podre… De fazer bonecas de pano, brincar de casinha usando de recursos muito simples. E o que dizer das cantigas de roda? Ciranda, cirandinha… Se esta rua, se esta rua… Eu sou pobre, pobre, pobre… O cravo brigou com a rosa… Mas não posso deixar de lembrar também dos terrenos baldios, nas cidades grandes ou pequenas, que se transformavam em campos de futebol. Bolas, mero detalhe. Podiam ser de couro, borracha ou meias enchidas com qualquer coisa que desse um formato minimamente esférico. Mas o que nunca faltava eram craques, grandes craques. E os pais, irresponsáveis? Como deixavam os filhos simplesmente sairem à rua, até voltarem para casa suados, sujos e cansados? Outros tempos. Sem medo e menos violência.

Pois o tempo passou e o mundo evoluiu, muito rápido. Na cidade grande, onde havia um campinho de futebol, talvez viva lá pelo décimo andar uma criança semi-confinada, sem poder sair sozinha de casa, porque isso ficou perigoso. E que não conhece e não brinca os ingênuos brinquedos que referi no começo. E que por isto é sedentária, talvez obesa, com prejuízo de seu desenvolvimento físico e motor, ou na sua capacidade de comunicação, criatividade, socialização. E que passa horas em smartphones, tablets, computadores, videogames…. Talvez tenha até uma coleção de brinquedos altamente tecnológicos, eletrônicos, robóticos, tão perfeitos que a imaginação ou o faz de contas nem sejam mais importantes. Lembro, a propósito, de Sam Paulo, o Paulo Sampaio. Desenhista e chargista gaúcho, criador do Sofrenildo, cujos desenhos publicou muito tempo em jornais de Porto Alegre. Numa charge pelo Dia da Criança, o desenho mostrava o sobrinho, puxando uma caixa amarrada por um cordão, e ao lado, no chão, o brinquedo. Mostrou com uma clareza de pedagogo que no brincar o mais importante é a fantasia e a imaginação.

Mas muitas crianças modernas, além da sonegação do direito de brincar, já precisam muito cedo conviver com agendas de gente grande, com muitos compromissos: aulas de inglês, ballet, música, teatro, etc,etc…

Esta era a situação pré-pandemia. Mas como está a situação desde então ? Já temos como avaliar os danos físicos, emocionais, cognitivos ou de interação com o mundo? Ao mesmo tempo superconectadas, e superisoladas. Que contraditório, que paradoxo.

Não seriam assuntos para pautas de jornais, simpósios ou seminários com pedagogos, professores, pediatras e psicólogos?

Para terminar, uma conclamação: Crianças, uni-vos pelo resgate do sagrado direito de esfolar um joelho, ou sujar roupas e unhas, brincando na terra, na areia, na grama ou na natureza. Para que, como crianças, possam de verdade ser crianças.

Um grande abraço às crianças de todas as idades.

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