Aos 78 anos, após 53 anos de contínuo exercício profissional, tomei a decisão de interromper minhas atividades em consultório. Sou hoje o terceiro mais idoso médico de Montenegro. Mas parar de uma vez, e com tudo, me assusta muito. Por isto devo continuar ainda com atividades que já vinha desempenhando na Unimed, em auditoria médica e medicina ocupacional (exames para trabalho).

Em duas ocasiões, em 2019, participei como palestrante em um ciclo de palestras sobre preparação para aposentadoria, para funcionários da Unimed Vale do Caí com mais de 50 anos, falando sobre envelhecimento saudável e qualidade de vida. Mas se falar sobre algum assunto pode não ser muito difícil, viver na prática e sentir na pele, pode ser bem mais complicado e sofrido.

Várias foram as razões para a decisão de aposentadoria. O distanciamento dos filhos e da única neta, neste ano tão enviesado pela pandemia, pesou bastante. E fez pensar e rever valores. Trabalho ou um contato mais frequente com os filhos, no tempo que ainda resta de vida (e que não sei nem quanto, nem como será)? Existem vários outros argumentos, mas não vem ao caso relacioná-los agora.

No novo esquema que estou iniciando, pretendo ainda manter-me ocupado, mas ter um pouco mais de tempo para o convívio familiar, e talvez fazer algumas outras coisas que só um certo descompromisso de aposentado (ou parcialmente aposentado) permite.

Reconheço que sou muito mal dotado de habilidades manuais ou artesanais. Portanto, montar uma oficina de marcenaria para fazer carrinhos de madeira e doar no Natal, nem pensar… Meus poucos predicados vão mais para o lado intelectual do que para o prático. E se eu tentasse escrever uma crônica (na verdade nem sei se é o qualificativo), e tivesse a cara de pau de oferecer ao Jornal; e se num momento de vacilação ou de consideração pelo velho assinante do Ibiá, a Lica e a Mara ficassem constrangidas de dizer um não, quem sabe eu não tivesse a chance única de ser um inédito articulista, talvez de uma única publicação?

Para não falar de Covid, prefiro lembrar que medicina, literatura, música e arte em geral, muitas vezes conviveram de forma muito harmoniosa. Cito alguns exemplos de médicos/escritores: Anton Tchekow, Arthur Conan Doyle, Axel Munthe, o afegão naturalizado americano Khaled Hosseini, o português Fernando Namora,o moçambicano Mia Couto, que não é propriamente médico, mas biólogo. Entre nós, os mineiros João Guimarães Rosa e Pedro Nava. E entre alguns gaúchos, o psicanalista Cyro Martins e Dyonelio Machado. Como esquecer Moacyr Scliar, o gaúcho imortal da Academia Brasileira de Letras, que se formou em 1962, na UFRGS , ano em que eu entrei na Faculdade? E há tantos e tantos mais, vivos e ainda meio escondidos, como Nilson Luis May, atual Presidente da Unimed/Federação.

Esta constatação de proximidade, quase simbiose, entre Medicina e Literatura, é mera coincidência ou poderá ter algum nexo causal?

Não será a experiência de estar frente a frente com as dores e as alegrias da alma humana? De conviver com medos, sofrimentos, fraquezas e esperanças? Ou o contato direto com a vida e a morte?
Seja como for, além de algum talento para as letras e as palavras, só poderá transmitir sentimentos que elevem, aquele médico que ao longo de sua prática, for incapaz de resumir cada consulta a magros cinco minutos de um contato muito superficial.
Talvez até breve
Grande abraço.

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