É provável que a maioria de nós tenha um familiar ou amigo, jovem, inteligente, formação universitária, fluente em inglês, com algum antecedente de viagens ao exterior, domínio de tecnologia, etc… etc… E que resolveu, em definitivo ou por algum tempo, viver, estudar ou trabalhar num país de muito bom nível de vida e receptivo para estrangeiros. Estados Unidos, Canadá, Austrália, Europa de modo geral, são alguns destinos. É o que se chama de “brain drain”, ou drenagem de cérebros. Países recebem jovens talentosos, formados às custas e com recursos de outros países. Excelente para ambos, para quem parte e para quem os recebe. Estão bem e têm futuro aqui, mas podem aspirar mais. Este tipo de migração não é o modelo padrão, mas a excessão.

Entre minhas atuais atividades, uma é a realização de exames de medicina ocupacional na Unimed. E não têm sido raros os exames, admissionais principalmente, em haitianos e venezuelanos, e também africanos, asiáticos e de outras regiões do Estado e do País, como Pará e Nordeste. A maioria dos estrangeiros vem fugindo, ou saindo ou abandonando precárias e sofridas condições de vida, não só sem futuro, mas até sem presente, que pode atender por nomes como comida, abrigo, sobrevivência ou liberdade. Deixando para traz o quase nada que tem, as suas famílias, as suas origens, as suas raízes, a sua cultura. São famílias que vêm aos pedaços, em que uns procuram abrir caminho para outros virem depois.

Haitianos muito pobres, com seus sonoros nomes franceses e jovens venezuelanos de bom nível educacional, até universitário, e que aqui vão desempenhar funções bem mais simples. Mas com uma imensa dose de esperança em dias melhores, em que qualquer pequena melhoria já lhes significa uma grande melhora. E que precisam, talvez sem saber ou ter consciência, de uma generosa dose de acolhimento, que lhes facilite seu processo de assimilação e adaptação em um mundo novo e desconhecido.

A maioria de nós, se não todos, temos também origens imigrantes. No meu caso, meus ancestrais germânicos maternos aqui chegaram em 1858, e pelo lado paterno o primeiro registro que encontrei é de 1.871. Embora tenha comprado uma vez numa lojinha em Campos do Jordão um quadro que seria um brasão heráldico de família , seria ingenuidade ou presunção acreditar em seu valor histórico. Porque não acredito na hipótese de algum passado de nobreza. Com certeza os meus antepassados imigrantes, e os de quem me lê, vieram e deixaram tudo para traz, e para sempre, por falta de perspectivas em sua própria terra. Para legarem o que nos legaram em poucas gerações, comeram o pão que o diabo amassou.

As migrações fazem parte da história da humanidade. Assunto muito amplo para uma pequena coluna. Muitas foram e são ainda hoje as razões para emigrar: catástrofes naturais, crises econômicas, guerras, motivos políticos, pobreza, fome. Arriscam a vida na busca da vida que não tem em suas próprias origens.

Um capítulo delicado penso ser a adaptação de muitos imigrantes em seus novos destinos. Em muitos casos um verdadeiro choque de culturas e de valores. Pode haver xenofobia de quem recebe. Mas também há estrangeiros que nada fazem para se adaptar, e mais do que isto, querem impor os seus modos de vida, suas crenças e seus fanatismos, a quem generosamente os acolhe. Exemplo é a “muçulmanização” de muitos países da Europa por absoluta resistência à necessária adaptação. Que sejam estes movimentos migratórios um grande exercício de generosidade e de tolerância, e de caldeamento de culturas, no que cada uma tem de melhor.

Grande abraço.

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