Nas poucas crônicas que escrevi até agora, tenho procurado abordar alguns assuntos de minha vivência e que penso possam ser também de algum interesse ou utilidade para os leitores. E que possam suscitar reflexões, questionamentos ou até dúvidas. E que não precisem, ou até nem devam ser coincidentes com as opiniões expressas pelo autor.

Vivências ou experiências do passado não devem ser vistas apenas como um exercício de saudosismo ou nostalgia, nem como uma régua a medir a dinâmica do presente ou a balizar o futuro. Mas que não podem ser desprezadas para um melhor entendimento da realidade presente.

Quando me formei, em 1967, recebi o número 3.682 em meu registro no Conselho Regional de Medicina e o número de habitantes do Estado era em torno de 6,5 milhões. Hoje somos pouco mais de 12 milhões, mas o número de registro profissional do CRM já passa de 50.000. Vejam que diferença. Além disso, a população era predominantemente rural, ou vivia em pequenas cidades ou localidades. As estradas eram precárias, os veículos poucos e as comunicações muito ruins.

A prática médica era pouco socializada. Os antigos Institutos de Previdência tinham atuação restrita e não havia operadoras de planos de saúde. Os pequenos hospitais ou eram de congregações religiosas ou de entidades comunitárias . Eles ( e os médicos ) cobravam de quem se podia e atendiam quem precisava. Era uma relação muito mais interpessoal do que institucional.

E o que dizer do desenvolvimento tecnológico da medicina? Comparado com hoje, era rudimentar. A maioria dos recursos de diagnóstico e tratamento, nem sequer existiam (e hoje reclamamos ao esperar uns poucos dias por um exame, mesmo numa indicação fútil ou de necessidade questionável).

Mas apesar disto, ou talvez por isto, os médicos tinham um papel importante na vida das comunidades e das pessoas, talvez mais do que hoje. Tecnicamente sabiam muito menos e faziam muito menos. Por poucos que eram , cada médico era responsável por uma região inteira, por sua saúde e suas doenças. Do nascimento até a morte. Como não estabelecer vínculos, com confiança de um lado e compromisso de outro ?

Demos um salto de 50 anos ou pouco mais , e estaremos neste admirável mundo novo de todos os nossos dias. E o que dizer então da prática médica? Quanta inovação, progresso tecnológico e resolutividade. Estamos na era da telemedicina, teleconsultas e inteligência artificial. Especialidades , sub especialidades, super especialidades…

O mundo mudou e o perfil de médicos e pacientes também. Mas tivemos algumas perdas. Principalmente de vínculos e de confiança. No passado, os médicos tratavam muito mais as pessoas com doenças do que a doença das pessoas. Hoje, o nível de conhecimentos explodiu de tal forma que fomos fatiados feito pizzas, e para cada fatia, cada órgão, cada patologia, um médico, um serviço ou hospital específico. Uma pessoa acaba precisando de vários médicos, não ao longo da vida, mas em cada momento da vida. E quem é o maestro? Quem organiza ou harmoniza a orquestra? Afinal, as doenças podem ser muitas, mas o doente é um só.

Talvez não esteja longe o momento em que cada pessoa tenha de fazer um curso rápido de medicina, para saber que especialista procurar conforme o novo sintoma que apresentar. Está ficando cada vez mais difícil um paciente ter alguém para chamar de “meu médico” .

Para encerrar, o exercício da medicina vai precisar cada vez mais de especialistas. Não precisará continuar tendo também bons generalistas? Talvez seja bom perguntar aos pacientes.

Grande abraço.

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