Quando iniciei, há pouco, minha despretenciosa coluna mensal no Jornal Ibiá, um assunto que logo me ocorreu é este que vou abordar hoje. E que é fruto de um acontecimento que foi muito marcante na minha vida.

Acho que começo bem ao recomendar a leitura do livro de um médico/escritor do nosso meio , J.J. Camargo, ou Professor José de Jesus Peixoto Camargo, brilhante cirurgião torácico do Pavilhão Pereira Filho, pioneiro dos transplantes de pulmão na America Latina em 1.989. “ DO QUE VOCÊ PRECISA PARA SER FELIZ? ” é uma coletânea de crônicas publicadas em Zero Hora, com textos escritos numa linguagem de enorme sensibilidade, e que retrata episódios pungentes, tristes ou até engraçados, vividos ou testemunhados no cotidiano de seu viver médico.

Na introdução do livro escreve: “ Nunca aceitei que, sabendo mais do que nossos antecessores, e disso ninguém duvida, tivéssemos de ouvir, indiferentes, os pacientes mais idosos falarem com nostalgia dos médicos de antigamente. Sem a pretensão exagerada de elucidar onde perdemos a mão e naufragamos no fascínio da tecnologia desvairada, assumi que devia, pelo menos dentro dos meus limites de competência, tentar entender porque isto aconteceu”.

De um médico, e dos demais profissionais da saúde, esperam-se conhecimentos e habilidades. São quesitos treináveis, que vão melhorando, como em toda curva de aprendizado, pela repetição e treinamento. Mas existe um terceiro elemento, a formar um tripé, sem o qual banquinho nenhum se sustenta. São as atitudes, comportamentos, comunicação interpessoal, empatia, solidariedade e genuíno interesse em ajudar. São um conjunto de atributos subjetivos e não treináveis, e que formam o que se poderia chamar de caráter de uma pessoa.

Um médico, apenas simpático, que conta piadas para descontrair e que sabe bater no ombro, sem um mínimo de conhecimentos, pode até ter sucesso, mas será pouco mais do que um charlatão. E de outro lado, o profissional com bom nível de conhecimentos, mas vaidoso, arrogante, prepotente ou dinheirista, incapaz de ouvir e compreender as angústias, medos, incertezas e até a ignorância dos pacientes, pode ser muita coisa, mas em essência, médico não será.

Volto agora ao primeiro parágrafo. Os que me conhecem sabem de um fato acontecido comigo, em 8 de novembro de 2008. Estava quase embarcando no Aeroporto de Guarulhos, sozinho, quando senti uma forte dor no peito. Apenas deu tempo para perguntar onde era o ambulatório médico, dizendo que estava infartando. Sofri cinco paradas cardíacas. Reanimação com cardioversão elétrica, intubação, balão intra-aórtico, stents. Acordei no fim do outro dia dentro da UTI coronariana do INCOR. Fiquei lá onze dias, e estou aqui para contar minha história.

Não por mera coincidência, o lema da instituição, presente na logotipia de todos os seus impressos é “CIÊNCIA E HUMANISMO”. Mesmo sendo médico, e sabendo estar num centro de excelência, pouco pude avaliar se o que me faziam era de última geração ou não. Mas o que pude sentir e ainda hoje me emociona, foi o modo carinhoso, humano e respeitoso com que fui tratado.

Passar pela experiência real de ser paciente talvez seja a mais enriquecedora aula para qualquer profissional da saúde, que pretenda ser um profissional de verdade.

Que sejam minhas palavras finais uma grande homenagem e reconhecimento, a todos os profissionais, que nestes tempos complicados e difíceis de pandemia, fizeram e fazem de cada dia um verdadeiro exercício de CIÊNCIA E HUMANISMO. Mostraram que são seres humanos da melhor qualidade. E o mundo precisa tanto de gente assim.
Grande abraço.

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