Moacyr Scliar definiu que “a crônica é a transcrição para o jornal da conversa de bar”. De fato, o bar talvez seja o local mais propício para se debater os assuntos menos importantes. Funciona como um refúgio dos ambientes que nos cobram maiores responsabilidades, como o trabalho ou o lar. Sentado à mesa com os amigos, pode-se divagar sobre as trivialidades da vida, deixando as grandes questões filosóficas para depois, quando o percentual de álcool no sangue ultrapassa determinado nível. Para o cronista, o estopim de uma reflexão surge nas mais improváveis situações corriqueiras.
Parado em frente aos freezers de sorvete num supermercado, tento decidir qual o melhor custo-benefício, calculando o preço em função do tamanho do pote. Ao meu lado, um senhor parece fazer o mesmo. Enfim, encontro uma promoção, cujo preço cairia mais 20% se levasse duas unidades. Infelizmente, só havia dois sabores à disposição; uns três potes de creme e uns 20 de uvas passas ao rum. Nesse instante, um funcionário veio informar àquele senhor que realmente eram os últimos sabores disponíveis no momento. Notava-se o conflito interno em sua mente pelos movimentos nervosos de mãos e olhos. Ao perceber que também estava olhando para os mesmos potes, indagou:
– Será que uvas passas ao rum é bom?
Aqui começa a filosofia. Seria interessante saber de onde vem esse costume das pessoas em fazer perguntas que não podem ser respondidas satisfatoriamente. Bom de acordo com quem? Ruim comparado ao quê? Esse tipo de julgamento é particular, pois levam em consideração conceitos próprios de cada pessoa. Como diria um antigo professor: “Gosto é que nem nariz; cada um tem o seu”. Ainda assim, o senhor continuava me olhando, aguardando uma opinião. Devolvi um “é diferente” como resposta. Aprendi essa estratégia num programa sobre viagens e gastronomia. A apresentadora provava pratos exóticos, com ingredientes que nunca ouvi falar, ao lado do Chef em algum restaurante chique, e sempre dizia isso após cada mordida. Convenhamos que algo diferente pode ser bom ou ruim, de acordo com cada um. O Chef sorria com satisfação; devia ser um otimista incorrigível.
– Então melhor não levar. – respondeu o senhor no super, pegando dois de creme.
A estratégia era obvia. Certamente teria menos chance de decepcionar a família com um sabor mais conhecido. Tendo em vista a difamação que as uvas passas sofrem nas festas de fim de ano, não é de se admirar que sobrassem no freezer.
Nem só de bar viverá a crônica. Enquanto houver conversa entre pessoas, mesmo que desconhecidas, continuará a existir matéria-prima. Cabe ao cronista transformar isso em texto, e levar ao jornal algo escrito de maneira mais leve que as manchetes do dia, muitas vezes pesadas, mas que precisam ser transmitidas. Crônica é apenas isso; algo diferente.

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