Faz quase quatro anos que pisei pela primeira vez dentro de um presídio, como agente da Pastoral Carcerária da Igreja Católica. Foi na Penitenciária Estadual Modulada de Montenegro, localizada em Pesqueiro, que visitamos semanalmente. Foi o início de um processo de conversão, de mudança da minha mentalidade.
Uma primeira surpresa: os homens e as mulheres que encontrei lá dentro são pessoas humanas muito parecidas comigo, não são bichos, são gente. A história deles os levou para lá como detentos; a minha me levou como agente da Pastoral. A maioria deles não concluiu o Ensino Fundamental, são de famílias pobres, muitas delas já marcadas pela chaga da violência.
A segunda surpresa: eu pensava que ia levar Deus para eles. Pois sabes que eles é que mais me revelam Deus? Lembro-me do que Jesus falou: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. Lá participo de momentos de oração e de meditação bíblica que são marcantes.
A terceira surpresa: as prisões não são um lugar em que eles escolhem ficar para ter direito a benefícios do governo e desfrutar de uma vida boa, como tantas vezes eu ouvi falar: “Esses vagabundos vão pra prisão para as famílias receberem dinheiro do governo!”. Não é verdade! Falta-lhes muito para poderem viver com dignidade humana. Porque cometeram crime, a lei prevê que sejam privados da liberdade. Mas é ilegal que sejam privados de educação, de saúde, dos direitos básicos. As mulheres, em algumas situações por este Brasil afora, precisam usar miolo de pão como absorvente íntimo, pois não têm outra saída. E quando são mães? Quem cuida dos filhos? O presídio é frio, úmido, cinza, triste. São piores que um cemitério: no cemitério colocamos os corpos dos mortos, no presídio sepultamos histórias, dignidade e sonhos de pessoas vivas!
A quarta surpresa: a prisão não recupera ninguém. Eu aprendi na escola que as pessoas são presas para “pagar uma pena pelo mal que fizeram e se recuperarem”. Isso não funciona. Alguém comete uma infração à lei. Prendemos. Tratamos mal aquela pessoa para ver se ela se corrige!!!Que pedagogia falida que se usa!Nos escandalizamos com o que fizeram durante anos com os negros, obrigando-os à escravidão. Não entendemos o que fizeram os nazistas com os judeus. Um dia a história nos perguntará: como, em 2017, no Brasil, havia 650.000 pessoas atrás das grades, sendo tratadas desumanamente?
Em São Paulo, no dia 02.10.1992, aconteceram 111 mortes, no massacre da Penitenciária do Carandiru. Já se vão 25 anos desse acontecimento. Todos os anos morrem muitas pessoas nos presídios. Fora dele morrem vítimas das mais diversas formas de violência. No Brasil, nos últimos 27 anos, a população carcerária aumentou 600%. Onde vamos chegar? Logo mais teremos mais gente presa do que em liberdade.
Eu não tenho todas as respostas ao problema carcerário brasileiro. Não podemos, de repente, soltar a todos. Não sou a favor da violência, da injustiça, da impunidade. Mas a Pastoral Carcerária é signatária de uma Agenda Nacional pelo Desencarceramento. Podes encontrá-la em www.carceraria.org.br. É interessante pensar nisso: o nosso sistema penal é desumano, é caro, é ineficaz. Então, por que manteralgo que não funciona?

Pe. Eduardo Luis Haas
Seminário Maior de Viamão
Agente da Pastoral Carcerária da Diocese de Montenegro

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