A maior característica de uma mulher, cria da periferia pobre, é ser lutadora. Por vencer o preconceito, trabalhar os sentimentos e o que enfrenta no dia a dia. Temos que lutar até para sermos identificadas. As pessoas esperam de nós alguém de pouco estudo, pobre e ignorante intelectualmente. É muito fácil dizer o que todo mundo diz. Só parece difícil lembrar que os nossos territórios receberam e recebem pessoas de muitas cidades brasileiras e ultimamente até de outros países. E a diversidade sempre existiu.

A limitação de uma mulher de periferia pobre começa na falta de direitos. Faltam os direitos que em teoria até temos, mas não podemos usar; e os que nunca foram oferecidos.

A criação que recebia dos meus pais foi quase a mesma que minhas vizinhas receberam. O tempo livre era só para brincar na Vila. Pulava corda, corria pique-esconde, três marias, bola de gude e outros. Nossas mães acompanhavam a gente até chegar à escola, que ficava perto de casa. Mesmo com esta vida engravidei cedo e no lugar dos estudos e trabalho, formar uma família passou a ser prioridade. Isso continua sendo comum na vida de jovens mulheres moradoras de periferias pobres. A independência e a maternidade precoce estão ligadas. Quando o futuro não é focado em trabalho ou estudo, a escolha de viver pela tradição é feita por si só.

Independente do motivo, acho que ter um filho antes dos 18 anos não é um sonho. Mas nós sofremos pressão de qualquer maneira. Se engravidou, tem que se juntar com o namorado (sendo que na maioria das vezes o covarde não assume) e buscar formas de sustento. Se quer estudar, vai ter que trabalhar ao mesmo tempo e logo adiante não vai ter como estudar, só correr atrás do sustento.

Aprendi ser forte na dor, no sofrimento e na inconstância da vida. Um tempo bem e um outro mais ou menos, mas lutando sempre para buscar o melhor à minha família. A mulher tem também essa facilidade de conseguir tirar uma forcinha lá do fundo. Quando a gente acha que acabou, vem mais uma, vem mais um arzinho, você dá mais uma respirada e segue em frente.
Sempre pensei diferente, buscando a minha valorização, mas me descobri no Núcleo Maria Maria da Cufa, onde mulher se fortalece e ajuda outra mulher.

Tenho sei filhos. Moram todos comigo, com os problemas e as alegrias de qualquer família, onde sou mãe e pai. Eles continuam sendo a minha força. Eles são o meu ânimo de todas as manhãs. Eu olho para eles e digo que valeu a pena tudo que nós enfrentamos juntos. Valeu a pena tudo que nós passamos. Eu faria tudo de novo por eles, porque eles são tudo para mim.

Liane Pereira
Mãe da favela

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