Rodrigo Dias
Professor

Segundo Átila Iamarino, biólogo e doutor em Microbiologia pela Universidade de São Paulo e pós-doutor pela Yale University (Lattes, acessado em 24/03/2020), o coronavírus geralmente é transmitido a partir do quarto dia em que uma pessoa o contrai. Em média, quem o contraiu, transmite-o para outras duas ou três pessoas e, se esta cadeia de transmissão não for interrompida, estima-se um milhão de mortos no Brasil. Portanto, para quebrar com isso, você e eu precisamos ficar em nossas casas. O Sétimo Selo (1957), filme de Ingmar Bergman, conta a história de um cavaleiro medieval que, ao voltar das Cruzadas, depara-se com a Peste Negra. A Morte aparece em sua frente e ele a desafia para uma partida de xadrez (dizem que a Morte joga muito bem e nunca perde).

O historiador italiano Carlo Ginzburg, em “História Noturna”, diz que, no ano de 1321, leprosos e judeus foram acusados de produzirem um veneno que seria jogado nos rios da Europa e contaminaria as pessoas com lepra. Era necessário forjar um motivo para eliminar leprosos e judeus. Encontrar culpados é uma das premissas do pensamento obscurantista. Os chineses são a bola da vez, mas também encontramos o velho pensamento supersticioso que relaciona fatos que não têm nenhuma conexão, como pecados e pandemia, ou ainda, posições que remetem o coronavírus a conspirações de adversários políticos, da mídia, etc. Estes navegam, assim, na direção contrária a do conhecimento científico tão arduamente produzido pela pesquisa contemporânea.

O uso e a combinação de lentes propiciaram a invenção de duas das ferramentas mais importantes para o desenvolvimento da chamada “revolução científica” do século XVII: o telescópio e o microscópio. O primeiro nos possibilitou conhecer o universo e como somos pequenos perante ele; o segundo garantiu que observássemos seres minúsculos e que esses eram os responsáveis por inúmeras doenças mortais até então inexplicáveis, ou explicáveis apenas pelas superstições. Sim, é necessário que se demonstre a importância do conhecimento científico que é produzido nas universidades pelos pesquisadores.

Agora, estamos vendo como a Emenda Constitucional 95 foi nefasta para a educação/ciência e a saúde, pois cortou bilhões de investimentos nessas áreas. Sim, o liberalismo econômico não dá certo, o coronavírus é a prova de que o Estado é importante para garantir bem-estar social, com o SUS e as universidades públicas. Na verdade, o Brasil é um país muito rico e pode investir em várias áreas: saúde, educação, cultura, esporte. O nosso problema real é a má distribuição dessa riqueza, pois poucos ficam com muito. Portanto, o liberalismo que quer diminuir o Estado e o obscurantismo que ataca a ciência, propagados pelo atual governo brasileiro, são um perigo para todos nós.

A única experiência anterior que tive de isolamento social foi o livro “Memórias da casa dos mortos”, de Dostoiévski. O autor fora condenado por ler uma carta em uma reunião de socialistas utópicos que atacava o Imperador russo (Czar) e, por conta disso, deveria ser fuzilado. Alguns minutos antes do momento fatídico, fora tirado do corredor da morte e enviado para um presídio na Sibéria. Sinto-me assim, salvo de um tiro (um vírus), mas preso em casa. Todavia, nem a economia ou o trabalho são mais importantes que a vida. Ao propor uma partida de xadrez com a Morte, parece prudente que este jogo dure por muitos e muitos anos ainda: que comece a partida!

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