Rodrigo Dias
Professor

O carnaval de Victor foi neste último sábado, 14 de março, na Estação da Cultura. O menino ainda não tinha três anos de idade, mas desfilava em meio a sua comunidade da Escola de Samba Unidos do Bairro Industrial (Esubi) e, com seu pandeiro, golpeava pá-ra-rá-pa-pá! Sua mãe, orgulhosa, corria atrás daquele garoto de camiseta do Capitão América que mal conseguia segurar seu instrumento. Sim, a baqueta era enorme e a armação metálica não cabia direito na pequena mão do menino. Mas Victor é insistente, Victor é teimoso e repercute o carnaval independente de Montenegro!
Artistas e músicos de Montenegro decidiram dar um basta no esquecimento, na borracha que se esforça para apagar os traços culturais que resistem a duras penas numa sociedade desigual e racista como a nossa. O Carnaval na Estação surgiu como festa popular independente, porque se fez de baixo para cima, sem recursos da Prefeitura, mas com apoio da comunidade e organização daqueles que lutam pela democratização dos espaços públicos e valorização da arte em Montenegro, afinal, somos a cidade da FundARTE!
Logo que vim morar em Montenegro, tive a oportunidade de participar dos ensaios do Carnaval da Associação Cultural Beneficente Floresta Montenegrina, onde fiquei sabendo que esse clube negro era um dos mais antigos do Brasil. Fundado em 1916, leva-nos a concluir que a nossa cidade não é unicamente de origem açoriana, alemã e italiana, mas sim, tem grande representatividade da população negra, bem como no resto do país. O Carnaval é a grande festa afrodescendente do Brasil, sendo a maior expressão da arte e da cultura popular que temos. Contudo, infelizmente, o Carnaval não tem sido devidamente valorizado pelos órgãos públicos em nossa cidade. Os ensaios da Floresta não acontecem mais. Os desfiles do Carnaval de rua pela Ramiro ficaram apenas na memória do povo que trabalha o ano todo (ao lado dos índios, o povo afro foi quem trabalhou efetivamente desde o Período Colonial no Brasil) e que, agora, sequer podem manifestar essa cultura que tanto nos representa.
Lá estávamos na Estação da Cultura, respirando o ar da resistência; eu, sempre olhando de esguelha o menino da baqueta. Entram os artistas em cortejo poético vindos da Rua Castro Alves, passam a Cia de Teatro Renascença, o Bloco Ibiraiaras, Monica Vaiper em Carmem Miranda, na arte drag da cidade, Estúdio Khaos, Plié&Cia Ballet Débora Primaz, Karima Dilshad, Ezequiel Souza, diretório Acadêmico da UERGS (DARA), alunos da FUNDARTE, Arte Som, Movimento Pró-Artes e eles, a Escola ESUBI: com sua bateria no ritmo de nossos corações, percutindo o surdo com seu bum-burum-bum, o repique, ta-ra-ta-tá. Victor, com seu tamborim, insistia. Victor teimoso, que na Escola de Samba aprende a tocar; mas, sobretudo, aprende a enraizar-se em sua cultura, a identificar-se com o que lhe pertence. A arte e a música foram feitas para ti, vai Victor!

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