Reprodução - O triunfo da morte, de Pieter Brueghel
Rodrigo Dias
Professor

O presidente da República participa de atos, aglomerações de pessoas, discursa, aperta a mão e até tosse sobre seus correligionários e, como se não bastasse, defende o fim do isolamento social. Não, não siga o exemplo do presidente!
O Brasil tem longa tradição no combate às epidemias. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) iniciou seus trabalhos em 25 de maio de 1900, a partir do Instituto Soroterápico Federal. Produzindo vacinas e soros contra a peste bubônica, o jovem bacteriologista Oswaldo Cruz iniciou uma reforma sanitária que erradicou a peste bubônica e a febre amarela na cidade do Rio de Janeiro. No entanto, a pobreza, a baixíssima escolaridade da população e a inabilidade do governo elitista de Rodrigues Alves dificultaram muito tais políticas. Por exemplo, a vacina contra a varíola era obrigatória para crianças desde 1837 e, para adultos, desde 1846, porém, sem efeito. Então, em 1904, o Congresso votou a obrigatoriedade da vacina e estabeleceu várias restrições aos não vacinados. Esse fato, associado à oposição ao presidente, levou à Revolta da Vacina, ou seja, o povo rebelou-se contra tal lei.
Hoje ligada ao Ministério da Saúde, a Fiocruz é referência na produção de conhecimento científico e tecnológico na área da saúde. Dessa forma, o médico epidemiologista Mauricio Barreto, da Fiocruz, defende o isolamento social como única alternativa contra uma eminente catástrofe provocada pela pandemia do coronavírus. O presidente da república poderia utilizar-se dessa fonte largamente, mas não o faz; ao contrário, prefere postar-se contra a ciência. O paralelo com a Revolta da Vacina é inevitável. A pobreza continua atuando como dificultadora de políticas sanitaristas e, com certeza, a desigualdade social será um dos agravantes da pandemia no Brasil. Assim, há também a incapacidade de reconhecer a importância da atual produção científica na área da epidemiologia como essencial para a preservação da vida.
Além de contribuir com a proliferação do coronavírus com suas atitudes e falas, que servem como exemplo aos incautos, o presidente trabalha para dividir o País: propaga conspirações, forja inimigos e culpados. Sua participação em um ato contra a democracia só comprova que governa a partir de um instinto absolutamente belicoso e nada racional. Constrói, a cada dia que passa, uma verdadeira catástrofe política. Incapaz de negociar, dialogar, pactuar; lida com tudo como se fosse uma guerra, como se alguém precisasse ser exterminado.
O combate à pandemia tem tido uma grande contribuição da matemática que, com a estatística, busca padrões e tendências para projetar o futuro. Com a coleta de dados, será possível, futuramente, saber quais foram as políticas públicas mais eficazes contra a pandemia, assim como saberemos que tipo de políticas geraram mais mortes. Nesse sentido, os atuais gestores – presidente, governadores e prefeitos – poderão ser avaliados e até responsabilizados por seus atos. Governar é fazer escolhas e sugiro que tomem como orientação o Artigo 196 de nossa Constituição: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.” Portanto, a economia deve servir a saúde e não o contrário. Outrossim, o isolamento social é o único método que reduz efetivamente o risco a essa doença – como têm dito pesquisadores, cientistas e a Organização Mundial da Saúde – e deve ser considerado uma política de Estado, para o país e para a nossa cidade.

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