Cássio Brito
Contador, Professor e Pensador

Hoje acordei com a sensação de morte e essa sensação me preocupou. Resolvi olhar para minha esposa com toda a verdade do mundo e, além de desejar um bom dia, dizer que a amava e o quanto era importante para minha vida. Se tinha que partir, talvez essa mensagem verdadeira amenizasse a dor e reduzisse um pouco o montante de dívidas existenciais que acrescentei nessa passagem por aqui.
Fui até meus filhos e beijei cada um. Também disse que os amava, que acreditava neles e que o resultado que via, em suas ações, somente me garantia a tranquilidade de ter exercido no melhor a paternidade.
Saí de casa distribuindo sorrisos para todos que encontrava…. devia ter feito isso mais vezes antes de meu último dia, pensei descuidadamente…
Alimentei minha alma com a certeza de ir para o trabalho e que teria o melhor dia de todos os que já trabalhei, afinal seria o último… chegando lá, saudei a todos e surpreendi dessa forma muitos colegas, desfazendo algumas impressões.
O ambiente de trabalho não deve ser um local sisudo, tenso e denso, mas um local agradável, afinal, a maior parte de nosso dia está ali. Compartilhamos com nossos colegas tudo que trazemos dentro de nossos corações. Se trazemos mágoa, tristeza, medo ou insegurança, é isso que emitimos e isso que se multiplica em todo o ambiente… como compartilhei apenas a sensação boa de querer que todos ficassem bem, contribuí para a harmonia do lugar e das pessoas. Sem as travas do medo e da insegurança, contribuí mais com ideias e sugestões, mesmo aquelas mais bizarras, pois, sendo meu último dia, a imagem de uma pessoa construtiva e que contribuía para a empresa ficaria gravada no coletivo, e talvez, quem sabe, seria o modelo para outras pessoas também.
Fui almoçar e não fiz cerimônias… comi para estar feliz, sem culpa, sem medo, sem ressalvas… obviamente que não abusei para evitar alguma dificuldade de digestão. Comi bem, alegre e sentindo todos os sabores, todos os cheiros. Olhei as pessoas ao meu redor e pareceu que foi a primeira vez que vi alguém no restaurante, pois normalmente entrava de cabeça baixa.
Senti as pessoas ao meu redor, elogiei o serviço e o cardápio. Elogiei a decoração, afinal, tinha detalhes que eu nunca tinha visto e mereciam ser reparados pois alguém, propositalmente, pensou em deixar ali para que alguém olhasse e apreciasse.
Voltei para mais uma tarde fantástica de trabalho, onde até sorrisos surgiram de pessoas de quem jamais imaginei que obteria algum sorriso!
O dia findou, e não morri. Num misto de decepção e alegria por não ter sido meu momento, voltei para casa me sentindo um vencedor e percebi que algo havia mudado. Minha família estava mais carinhosa e sorridente, meus dias pareceram melhores desde então. Parece que, de fato, havia morrido e renascido para outra existência.
Decidi então morrer todos os dias e valorizar cada segundo com meu próximo, cada contato, cada oportunidade de ajudar, de melhorar e de construir.
Decidi morrer todos os dias de maneira feliz, de maneira plena e completa, de maneira que minha passagem, por aqui, significasse muito mais do que uma simples existência, mas uma vida inteira em busca do autoconhecimento e da melhoria contínua.

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