Rodrigo Dias
Professor

“Germinal”, de Émile Zola, publicado em 1855, é uma narrativa reveladora da vida miserável e perigosa dos trabalhadores das minas de carvão na França. O autor chegou a viver como operário para a pesquisa que levou à escrita do livro.
O século XIX foi o século da superexploração do trabalho. Jornadas de 16 horas diárias e salários baixíssimos levaram os operários a se organizarem e a lutarem por seus direitos. Origina-se, a partir disso, a contribuição sindical, que os mineradores de Zola chamavam de “Caixa da Previdência”; mas que também servia para a resistência, como fundo de greve. Esses mesmos trabalhadores, organizados, sentavam-se na sala de seus patrões e, admirados e constrangidos com a mobília, as sedas e com o calor da lareira a qual não estavam acostumados, negociavam seus salários de fome e explicitavam seus motivos de greve.
Hoje, a luta dos professores estaduais denota o quão injusta é a nossa sociedade, e que as greves, desde o século XIX, são legítimas e muitas vezes necessárias. O estado do Rio Grande do Sul é o quarto maior PIB do Brasil, somos grandes exportadores de gêneros alimentícios e temos um parque industrial considerável. Entretanto, pagamos o menor piso salarial do país para o magistério estadual. Como isso é possível?
O portal da Receita Estadual do RS demonstra que 244 mil empresas recebem algum tipo de incentivo fiscal, ou seja, são impostos que deixam de entrar. Bom dizer, a Lei Kandir sobre as nossas exportações também gera o mesmo efeito. Como um estado que se diz quebrado abre mão de arrecadação? Sim, temos um grave problema de injustiça: é que a maioria da população paga tributos e uma minoria de pessoas, não. A Revolução Francesa de 1789 ocorreu porque 1% da população, a nobreza, tinha o privilégio de não pagar impostos, e é por isso que – entre os três lemas desse movimento – há a palavra “igualdade” (as outras duas eram “liberdade” e “fraternidade”). O que significa dizer que todos deveriam pagar impostos igualmente!
Segundo a pesquisa realizada pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), coordenado pela Organização para a Cooperação de Desenvolvimento Econômico (OCDE), os países que estão no topo do ranking da melhor educação do mundo investem, em média, 10,8 mil dólares por aluno/ano, sendo estes investimentos basicamente em valorização dos professores e diminuição da desigualdade socioeconômica entre alunos e escolas. Já o Brasil gasta 5,6 mil dólares aluno/ano. Ou seja, o problema é que o Brasil investe pouco em educação, já que para obtermos resultados melhores é necessário que se aplique mais recursos nesta área. O caminho está dado e apontado pelos países que estão no topo da melhor educação mundial: não será com a Emenda Constitucional 95 do governo Temer, que congelou gastos para o ensino, que vamos conseguir isso.
Portanto, se sabemos que é necessário aumentar recursos, valorizando os professores e diminuindo a desigualdade socioeconômica entre estudantes e escolas, e o governador faz o contrário, podemos concluir que ele prefere manter privilégios a gerar mais igualdade social. Uma das cenas que mais me chamou a atenção em “Germinal” foi quando o dono das minas de carvão, frustrado pelo casamento, o senhor Hennebeu, cavalgava entre os cortiços operários e observava os casais correndo e escondendo-se atrás dos muros para enamorarem-se – pensava: “E queixam-se aqueles idiotas da vida, quando tinham às barrigadas, aquela felicidade incomparável de se amarem!” Hoje, vejo os professores unidos, lindos e apaixonados na luta por dignidade e justiça; que todos os mesquinhos e gananciosos, ávidos na defesa de interesses privados, os invejem!

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