Rafael Koerig Gessinger
Advogado, Doutor e Mestre em Filosofia e Mestre e Bacharel em Direito (UFRGS)

O maior capital de uma comunidade é a qualificação das pessoas que a compõem. Alemanha e Japão não são economias robustas por causa de commodities, embora valorizem as riquezas naturais que possuem. Há certamente dezenas de abordagens que pretendem explicar a prosperidade e a estabilidade dessas duas nações. Vou destacar apenas um aspecto, que, todavia, penso estar na base de todos os demais: nesses dois países, não se aceitam soluções simplistas para problemas complexos.
Com a intrigante exceção do regime de 1933-1945, a tradição germânica sempre foi a de enfrentar com a maior coragem e energia possíveis os desafios que a natureza e seus arranjos oferecem ao homem. Só a lista de 51 cientistas alemães e seus feitos presente em https://www.studying-in-germany.org/most-incredible-germanscientists/ já é suficiente para provar o ponto. Em nenhum caso, houve progresso científico sem intensa dedicação. Sacrificar a complexidade da realidade para oferecer saídas fáceis jamais é uma opção. Felizmente, nossa comunidade científica, apesar das dificuldades, tenta seguir essa tradição. Na esfera política e em questões de administração pública, no entanto, os riscos que abordagens simplistas e soluções fáceis ensejam têm levantado preocupações tanto na Alemanha como aqui.
Em palestra na UnB, em 18/5/2019, o Professor Jan-Werner Müller, convidado da Embaixada da Alemanha para um ciclo de conferência sobre democracia, explicou que uma das principais características do populismo é a simplificação desonesta de questões políticas complexas. O populista é aquele que, diante de um problema grave, invoca um slogan (normalmente ligado a uma noção caricatural de povo ou de sentimento patriótico) e, com isso, tenta dissolver o problema no ar. É claro que o problema persiste e a conta só aumenta. O professor Müller também advertiu que o populismo não tem ideologia fixa, pode ser de direita ou de esquerda, seja lá o que essas expressões ainda signifiquem. A alternativa ao populismo não é paralisia reverencial à eventual complexidade da situação. De uma suposta resistência ao populismo, ouvimos coisas como: “Ora, a violência urbana tem um conjunto de causas muito difícil de ser decifrado. Logo, não devemos tratá-la de modo precipitado. Devemos apenas fomentar a sua discussão, instituir comissões para analisar o assunto.” Essa é uma alternativa preguiçosa e covarde, típica do Brasil dos 7×1.
Problemas complexos exigem soluções sofisticadas, que só surgem com muito empenho e inteligência, e que nem sempre são fáceis de explicar para o grande público. Daí ser tão importante ter, além de líderes arrojados, um corpo burocrático qualificado num estado que se quer eficiente. A deliberação política e administrativa precisa estar à altura dos desafios concretos que a vida real apresenta. É evidente que estudo e reflexão fazem parte da deliberação, mas no domínio prático (do qual medicina, direito e política são bons exemplos) decisão e ação não podem ser postergadas indefinidamente. O tempo passa. E enquanto muitos vêm se enredando em calorosas discussões “ideológicas” por aqui, Japão e Alemanha seguem buscando e obtendo soluções à altura dos problemas que enfrentam.

Deixe seu comentário