Cássio Brito
Contador, Professor e Pensador

Saramago publicou, em 1995, uma obra intitulada “Ensaio Sobre a Cegueira” e ali podemos encarar as vilanias humanas de forma nua e crua. O autor aborda de maneira contundente o egoísmo, a soberba, a podridão do bicho homem social e sua forma de encarar um mal comum, pensando única e exclusivamente em si.

“Foi uma das coisas mais difíceis que fiz”, alega, ao confrontar sua obra com as sensações que lhe repercutiam o íntimo durante sua escrita, pois o Bicho Social, despido das maquiagens que o cotidiano lhe impõe e investido do manto da autopreservação, se mostra triste e horrendo.

É um livro denso, repleto de símbolos e caricaturas de personagens que acidentalmente podemos confrontar nos dias de hoje, em um supermercado, banco ou na praça, praticando exercícios.
Mas o que isso tem a ver comigo?

Exato. O que tem a ver comigo, contigo, com todos nós? A corrida alucinada para supermercados, farmácias ou açougues. A compra desenfreada de itens em quantidades muito além da necessidade. O mau humor nos embates pela busca de seu bem precioso…

“Meu Precioso!!!” dizia SmeagleGollum ao referir-se ao seu Anel Mágico, em O Senhor dos Anéis (Tolkien), e também demostrava isso, ao perder sua referência humana em detrimento de algo que o consumia, o absorvia e o transformava em um monstro sub-humano, repleto de mágoa e angústia, bem como o medo de perder aquilo que lhe era mais importante em sua vida.

Será que os autores estavam certos ao retratar o Bicho Homem, sob a pressão de uma peste que obrigou os humanos a se enclausurarem, como narrou Saramago, ou ao apresentar o triste Smeagle em sua fascinação descabida por um simples objeto?
Não sei responder…

O que sei, com certeza, é que me recuso a ser um destes personagens e tomar de assalto prateleiras de supermercados em busca de meu anel mágico. Me recuso a tratar com indiferença a dor do próximo por estar concentrado em minha dor, esquecendo que a dor não é minha ou dele, é de todos. Me recuso a não perceber minha responsabilidade e participação nesse enorme organismo chamado Cosmos!

Sugiro que, aqueles que possam, aproveitem estes momentos conturbados para dedicar-se a uma boa leitura, como o Ensaio Sobre a Cegueira e, ao ler essas obras, os convido a refletir sobre o Bicho Homem Social de Saramago, ou sobre qual personagem de Tolkien tem maior relação com a forma como atuamos nos dias de isolamento que vivemos.

Vamos encarar a jornada de Frodo, em O Senhor dos Anéis e seus épicos personagens grandiosos, SmeagleGollum e “seu precioso”, Aragorn e sua grandiosidade, ou Sam e sua amizade acima de qualquer coisa!

Vamos nos encontrar com o cego, com sua mulher, com o médico e com a mulher do médico, essa, a única pessoa capaz de enxergar e, dessa forma, emprestar sua visão para um tenso leitor assombrado com as similaridades e diferenças com as realidades vividas.

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