FOTO: PIXABAY

Olhar pela janela é como espiar outra dimensão. É o mundo externo onde circula a mutação perigosa que pulou do vampiro para o aldeão. Antes, janelas eram um convite para sair. As cores pulsantes revelavam inúmeras sensações que convidavam para viver a pleno. Agora, são quadros mais cinzas. Deixaram de convidar, para alertar a respeito de nossa fragilidade humana. Algumas vezes fico olhando os dias de sol deste verão com atitude de outono. Vejo as pessoas que passam, e imagino quais delas possam ser um portador. Elas têm suas vidas, seus compromissos e rotinas que não puderam interromper, obrigadas a seguir frenéticas pelas ruas em uma versão de heróis mascarados do caos.

Quero acreditar que a maioria realmente não teve opção. Não desfrutam do mesmo direito que tenho, de ficar isolado. Então penso nesta palavra: isolamento! Como pôde passar da classificação de suplício para a de redenção? Agora ser sozinho é sinônimo de sobrevivência.

Então quer dizer eu consigo fugir da doença sufocante se submergir na solidão frustrante? Apenas suporto a resposta lancinante porque é conferida pela Ciência. Caso contrário, certamente eu seria tão arrogante quanto os que pagam pra ver, pois também prezo pela minha liberdade. Aqueles que passam na minha janela sem máscara, tenho observado também, intrigado por sua jornada. Despertam em mim a mesma curiosidade dos mascarados. Mas não consigo interpretá-los como vilões do mundo externo. Temos nossas odisséias a cumprir.

A noite chega, e não faz sentido olhar pela janela. A penumbra é fascinante, claro! Mas nestes dias, a calada da noite tem sido perturbadora. É um silêncio que brota do medo. Que parece antecipar um extermínio em massa. E se eu fosse o único sobrevivente em um planeta devastado pelo vírus? Isso não valeria a pena. Curtir a solidão só faz sentido quando temos o poder de colocar fim nela. Ficar no cantinho deve ser uma opção.

No longínquo, que antes era logo ali, ouço um carro. Logo ele vai passar na janela. Quem será que é? Aqui dentro, ouvir é como enxergar, e tenho tempo para o silêncio. Consigo desvendar uma voz abafada por paredes e um cachorro que late. Percebo que a solidão está apenas aqui dentro. Deixo meu portal aberto, pois assim sinto alguma vida passando. É como confraternizar com vizinhos invisíveis. Isso fica evidente pela ausência de um ‘boa noite’. Também não tem ‘bom dia’. Não tem ‘tudo bem?’. Quantas vezes eu proferi de forma protocolar! Por educação! E como eu não falo sozinho, fico apenas com o monólogo do rádio insistindo em falar do mundo externo.

Do repouso eu consigo ver a labuta. São quatro passos que separam o ócio do produtivo. O café da manhã servido com responsabilidades e correria. Quando foi que sexta-feira virou a nova segunda-feira? Deve ter sido no mesmo dia em que nossa conexão passou a ser virtual. O problema dela é que tu nunca sabes quando a mensagem não foi vista ou foi ignorada. O home office é um fantasma dependente.

São dias que tudo faz falta. Roqueiro que sou, senti falta do Carnaval. Não de sair em bloquinho ou girar no salão de baile. Não gosto do ritual. Senti falta de saber que estava acontecendo. Que por cinco dias havia gente reunida, beijando, pulando. Queria saber que o morro desceu para o asfalto, fantasiando em cores que ofuscam a realidade desta Nação. O palhaço não arranca mais a gargalhada!

Da porta pra fora tem tudo o que eu quero, e que tenho que pedir. Ao menos o meu ‘por favor’ é sincero. É quase uma súplica a quem ainda precisa andar pelo mundo externo. E mais uma vez sou privilegiado, pois consigo ver sinceridade e carinho nos olhos de cigana oblíqua e dissimulada. Me dá força para persistir isolado, quando posso transformar os dias da morte em um poema de amor.

Da última vez que olhei pela janela fazia um ano que fui isolado. Mas já não via fragilidade humana. Agora posso ver minha força!

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