Lendo um texto do economista Luiz Gonzaga Belluzzo na internet, achei interessante a citação que fez do italiano Norberto Bobbio, onde este fala que se pode avaliar “o grau de civilidade de uma sociedade pela forma como trata as crianças, os velhos e os prisioneiros”. Jorge Amado publicou Capitães da Areia em 1937, ano que iniciava a ditadura varguista do Estado Novo. Uma ficção que conta a história de um bando de meninos de rua, promotores de furtos e pequenos delitos para sobreviverem na cidade de Salvador, Bahia. Bandidos, delinquentes, escória da sociedade?

Por que aqueles meninos que corriam nas ruas da cidade, ao invés de terem escolhido cerveja, cigarros e sexo não optaram por sorvete, futebol e brincadeiras?

A partir de dados divulgados no final de 2014 pelo Ministério da Justiça, a maioria dos presidiários brasileiros é constituída de indivíduos jovens (56%), negros (67%), pobres e de baixa escolaridade (53% com o Ensino Fundamental incompleto). Se fosse propriamente uma questão de escolha e se as oportunidades fossem as mesmas para todos, por que a proporção de negros e brancos, por exemplo, não é equivalente nos presídios brasileiros?

Podemos encontrar respostas nas raízes do Brasil: 400 anos de escravidão e 500 de domínio de uma elite com mentalidade aristocrática e conservadora que tem garantido, com seus privilégios, que o Brasil seja uma das sociedades com uma das piores distribuições de renda do mundo.

Esta mesma parcela da população não aceita que o Estado trabalhe no sentido de mudar esta situação. A diminuição de investimentos na saúde e na educação (PEC 55) e redução de direitos trabalhistas (reforma da previdência) são contraditórias ao grande acúmulo de capital por este setor da sociedade e pelo alto desenvolvimento tecnológico (a máquina não deveria estar diminuindo o tempo de trabalho humano?).

É a má distribuição de renda que tem gerado violência e jogado pobres, negros e jovens para a marginalidade, e esse processo começa na infância.
Essa ideia neoliberal tem sido apresentada até como pedagogia. Agora, com o novo Ensino Médio, os adolescentes devem escolher o que querem estudar. As responsabilidades das escolhas são dos jovens, o governo lava as mãos. Se não conseguirem emprego no futuro, ou ganharem pouco, a culpa é deles. Escolheram errado. Enquanto isso, nas escolas privadas, todos os conteúdos seguirão sendo ministrados de forma exaustiva, possibilitando o acesso completo do conhecimento produzido pela humanidade, sem opções. Por que a diferença?

Acredito que as pessoas sejam o resultado daquilo que aprenderam a ser. Só caminhamos, falamos e lemos porque nos ensinaram isso. Até o amor se aprende.

Confesso que fiquei imaginando que se os “capitães da areia” da Era Vargas tivessem tido pais amorosos (porque tiveram uma vida digna) e escolas pela frente, Jorge Amado não teria tido matéria inspiradora.

Rodrigo Dias
Professor

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