Nem acredito que já chegamos à última semana do ano e, por consequência, à nossa última coluna de 2019. E, temos que admitir, esse ano nos reservou momentos incríveis. Não importa se bons ou ruins, de alegrias ou superdesafios, cada minutinho desse 2019 foi incrível e, com certeza, será inesquecível.

Desde o dia em que saímos de Montenegro, 10 de maio, rodamos mais de 18 mil quilômetros. Trocamos o óleo a cada cinco mil, engraxamos as suspensões duas vezes (deveriam ter sido mais), trocamos a peça da porta que quebrou, o sensor de ar, soldamos o bagageiro seis vezes (três delas com reforço de um ferro de obra), tiramos uma parte da caixa d’água pra dar caimento e pressão na água da pia, compramos enfeites de Natal, colocamos algumas coisas fora e entendemos que nada nessa Kombi tem lugar definitivo,já que trocamos absolutamente tudo de lugar.

Rodamos por Uruguai (que não contamos muito com um país que conhecemos, já que cruzamos todo o seu território em quatro dias, com o objetivo de chegar rápido e antes do frio ao Ushuaia. Não funcionou), Argentina, Chile e Peru, onde estamos atualmente. Tivemos que fazer escolhas que mudaram completamente o rumo da nossa viagem, uma delas foi deixar a Bolívia pra outro momento. Não entramos no país devido às manifestações que rolavam (e ainda rolam) por lá. Faz parte.

Na verdade, podemos dizer que foram as escolhas que marcaram nosso 2019. Em janeiro, decidimos que passaríamos as férias construindo móveis e fazendo instalações elétricas, mesmo com experiência quase nula. Em maio, decidimos rodar todos os dias, sem descanso, até chegar ao Ushuaia. Em julho, decidimos cruzar a fronteira para o Chile pela terceira vez e conhecer a Carretera Austral, mesmo com a porta lateral amarrada com arames. Em agosto, decidimos ficar dois meses parados em Mendoza, Argentina, esperando o sensor de ar chegar pelo Correio, vindo do Brasil.

Praticamente todo dia, somos obrigados a buscar e escolher um lugar para dormir, onde comprar comida, qual posto abastecer, com quem puxar uma conversa, se mostramos que somos turistas e pedimos informação, ou seguimos por intuição, se gastamos com passeios ou com pratos típicos, se rodamos 100 quilômetros a mais (que resultam em duas horas de viagem de Kombi). Cada dia, somos obrigados a nos jogar de cabeça em novas decisões, já que raramente temos a segurança de estar no mesmo lugar do dia anterior.

Sabemos que são nossas escolhas que nos moldam e que decidem o rumo das nossas vidas, seja para agora, ou para o próximo país. E podemos dizer que não nos arrependemos de nenhuma das eleições que fizemos. Com cada uma delas tivemos experiências indescritíveis e únicas, e é isso que importa.

Pontos baixos
Claro, nem tudo são rosas nessa vida estradeira. Os perrengues são inevitáveis e acredito que foram nesses momentos que mais crescemos. Tivemos que, pela primeira vez na vida, resolver tudo sozinhos. Eu e o Rodrigo descobrindo que somos realmente capazes de sair de qualquer cilada, não porque queremos, mas porque precisamos.

Perdemos a porta, andamos milhares de quilômetros na altitude sem sensor de regulagem de ar, quebramos nosso bagageiro 500 mil vezes, ficamos sem grana, tivemos dias e dias de diarreia devido às comidas diferentonas, dormimos com medo, acordamos com mais medo… e entendemos, por fim, que é só não se desesperar, perguntar, pedir ajuda, ir atrás e resolver. Claro que o choro foi inevitável, assim como as angústias, medos e a saudade de uma vida mais estável e segura. Mas, tudo isso passa, assim como os perrengues passaram.

Alguns, né? Porque agora estamos atrás de um eletricista pra arrumar as sinaleiras traseiras e luz de freio da Analuz que estão queimadas. Pois é, os problemas nunca acabam, só vamos aprendendo como lidar melhor com eles.

Nós no Ibiá
Não fazíamos nem ideia que esse espaço nos traria tantas felicidades. Durante todo o ano, recebemos dezenas de mensagens de carinho e apoio, dicas e sugestões sobre nossa coluna Com Analuz pelo Mundo. Quando a ideia surgiu, tenho que admitir, achei que alguém leria (claro), mas nunca imaginei que alguém compraria ou assinaria o Ibiá só por causa dos nossos textos. Saber disso deu um “up” nos dias em que faltavam ideias, ânimo e sobrava cansaço.

Com a de hoje, escrevemos um total de 42 colunas em 2019. Foram 29.479 palavras escritas nessas páginas (loucura, né?). Falamos sobre lugares, sobre descobertas, sobre mecânica (o pouco que aprendemos com os problemas), sobre tristezas, sobre felicidades diárias, sobre momentos únicos e inesquecíveis, sobre os clássicos perrengues, sobre mudança, sobre nossa vida. Expusemos nossos sentimentos acerca de diversos assuntos, e não nos arrependemos; Montenegro e região foram super-receptivos com a gente e nossos textos semanais.

Então, nesse último final de semana de 2019 quero agradecer. Ao Ibiá, pela oportunidade de voltar a essas páginas. Às editoras, por entenderem os atrasos por falta de internet ou porque estava fazendo um passeio especial e por revisarem meus textos com carinho. À diagramação, por sempre tentar colocar todas as minhas milhares de fotos e deixar essa página um amorzinho. Ao meu pai, que cada semana me dá um retorno sobre o que achou do assunto, do layout, da minha escrita informal.

E, em especial e com uma alegria imensa, a cada um dos “meus leitores”. Aos que nos escreveram, obrigada pelo retorno, pelos elogios e também pelas críticas. Aos que apenas leram nossas aventuras, muito obrigada por me deixar entrar na sua casa e fazer parte do seu fim de semana. Espero que tenham conseguido viajar um pouco comigo também.

2020 vem aí! E com ele, os últimos meses fora do Brasil e o começo das últimas grandes fases: chegar à Colômbia e, enfim, voltar ao nosso país e desbravar um pouco do que nossas terras guardam. Quem vem com a gente?

Pontos altos
Lembram que a gente falou que antes de sair alguns lugares seriam marcos? Que dividimos a viagem em grandes paradas em lugares especiais? Então, chegar em cada um deles foi uma vitória. Foi a certeza que estávamos avançando, em quilômetros rodados, em aprendizados e em crescimento. Ushuaia, San Pedro de Atacama e Cusco (onde estamos) dividem a aventura em desafios únicos.

Chegar o “fim do mundo”, o ponto mais ao sul do nosso continente, nos mostrou que a nossa Analuz não tá nem aí pro frio e aguenta de boa gelo, neve e temperaturas negativas. Para chegar ao Deserto do Atacama, as guerras foram outras: altitudes de 5 mil metros acima do nível do mar e falta total de água foram algumas delas. E, a última grande parada até agora, Cusco tem nos encantado. Estamos aqui há duas semanas, vivendo intensamente o dia a dia no Peru, entendendo um pouco mais das suas crenças e curtindo cada surpresa dessa cidade maravilhosa.

Mas, com certeza, não foram os lugares o mais impressionante até aqui. Foram as pessoas. Compartilhar, dividir histórias, aprender, entender, respeitar… cada uma delas nos mostrou um pouquinho das suas vidas e deixou com a gente uma bagagem impressionante. Valeu a pena cada “hola” que demos e cada assunto que puxamos. Foram as pessoas que fizeram de 2019 um ano inexplicável.

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