Ainda estávamos no estacionamento quando ouvimos o primeiro estalo. Depois o estrondo. Depois o eco. Não vimos da onde vinha, mas percebemos que não era resultado de algo pequeno, mas de algo grandioso. Não fazíamos ideia que era consequência da queda de um pedacinho miserável do paredão de gelo de 70 metros de altura, quatro quilômetros de comprimento e mais de 257km².

O Glaciar Perito Moreno é o mais famoso dos três glaciares existentes no sul argentino. Isso porque o acesso a ele é muito fácil. Ele está localizado no Parque Nacional Los Glaciares, a 60 quilômetros de El Calafate, cidade onde ficamos por quase 10 dias. Após ingressar no parque, são mais 20 quilômetros até o estacionamento, que fica a poucos metros da geleira. Dá pra subir com carro particular, mas é preciso “cadenas”, as correntes para os pneus, que já tivemos que usar no Parque Nacional em Ushuaia.

E, sério, sem as correntes ou pneus com cravos é impossível andar lá nessa época do ano. O caminho não pega sol durante o dia por causa das montanhas e, por isso, tem muito gelo na pista. Dependendo da subida, ficaríamos patinando e, com certeza, desceríamos de ré (como alguns caminhões no “lombão” na frente da nossa casa aí em Montenegro, no pé do Morro São João).

Enfim, depois de estacionar o carro, a caminhada até o glaciar é por passarelas e escadarias que percorrem de um lado ao outro (há também rampas de acessibilidade até certa parte do caminho, demais!). E aí, quando você menos espera, se depara com aquele paredão gelado. Que sensação doida. É possível ficar a poucos metros do gelo. E lá permanecemos por mais de uma hora, ouvindo os estalos e vendo as ondas que a queda do gelo causa.

Esses pequenos rompimentos são comuns, tá? O Glaciar Perito Moreno está em equilíbrio. Esse é o termo utilizado para dizer que ele perde o mesmo tanto de gelo que ganha por ano. E essa manutenção é constante e acontece do fundo para frente, ou seja, vai se formando gelo novo lá atrás e vai empurrando para frente (onde podemos ver) o gelo velho, que em algum dia da sua vida decide cair. Achei isso tão legal!

Quanto custa?
A entrada no parque custa aproximadamente R$ 80,00 por pessoa. Quem quiser ficar mais tempo passando frio e conferindo essa maravilha da natureza, pode ir no dia seguinte também e pagar só metade do ingresso com o canhoto do ingresso do dia anterior.
Em El Calafate, existem muitas empresas que oferecem passeios de navegação e caminhadas até o glaciar pelas montanhas vizinhas dele. Ambos têm preços e durações que variam bastante. Vale pesquisar pela cidade.

A incrível, e triste, interação dos animais com o ser humanos
Ao lado do estacionamento há um restaurante bem grande, com lanches, refeições prontas e bebidas quentes. Passamos pelo banheiro antes de entrar nas passarelas e quando avistamos a Kombi, havia um pássaro, o tal Carancho ou Carcará (um falcão), que pousou sobre uma das nossas caixas de ferramenta e destruiu um saco de linhagem que guardava umas tralhas no bagageiro.

Espantamos o bichinho, mas não adiantou nada. Encontramos uns brasileiros durante a caminhada, que nos avisaram que um certo passarinho havia voltado e estava devorando nossas coisas. Ainda, que tentaram mandá-lo embora, mas que não deu muito assunto aos homens, não.

Quando voltamos pra Kombi, sacolas estavam rasgadas e espalhadas pra todo lado e a tampa de plástico de um pote havia sumido. A visita nos rendeu boas fotos, mas, infelizmente, sabemos que ele ingeriu ou levou parte desse lixo todo com ele, para seu ninho, seus filhotes, para a selva e outros animais.

Viramos pipoqueiros
Demoramos muito para colocar em prática um desejo que temos desde que saímos de viagem: vender pipoca! E escolher El Calafate para isso. É comum encontrar viajantes que vendem de tudo para conseguir uma grana a mais e também para interagir e conhecer o povo local. As pipocas tiveram exatamente esse efeito para nós. Vendemos pacotes doces e salgados e conversamos com todo tipo de gente, argentino ou estrangeiro, que se interessou por nós, pela Kombi, pela viagem ou pelos “pochoclos” mesmo.

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