Shakspeare

“Há mais coisas entre o céu e a terra,Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia.”

Embora muitos não conheçam a origem, quase todos já ouviram esta frase alguma vez. Ela foi cunhada pelo dramaturgo inglês William Shakespeare, no ano de 1598, e integra a peça Hamlet. Na obra, é um alerta do personagem-título a Horácio, seu colega de escola, e revela o espanto do príncipe Hamlet diante do fantasma do pai, que surge do reino dos mortos para pedir ajuda ao filho para punir o responsável por seu assassinato. Shakespeare foi precoce. Casou-se aos 18 anos, teve três filhos e construiu uma obra colossal, reconhecida em todo o mundo. Quatro séculos depois, suas frases emblemáticas continuam sendo repetidas porque o conteúdo rompe as fronteiras do tempo e servem como uma luva para as mais diferentes situações. De fato, “nossa vã filosofia” não consegue explicar muita coisa, como os acordos construídos na Câmara de Vereadores de Montenegro para definir quem ocupará a presidência nos quatro anos da atual legislatura.

Acordo – Uma discussão ocorrida semana passada entre os vereadores Felipe Kinn da Silva (MDB) e Juarez Vieira da Silva (PTB) forneceu indícios de que havia “algo de podre no reino da Dinamarca” (Perdão, Shakespeare!). E há mesmo. Trata-se dos “acordos” que levaram à eleição de Neri Pena (PTB) em 2017, Erico Velten em 2018, Cristiano Braatz (MDB) este ano e Joel Kerber (Progressistas) para 2020. Tudo começou antes mesmo da posse. Na época, seis dos dez eleitos já se perfilavam como oposição ao governo Aldana/Kadu e decidiram deixar a bancada governista, formada por PSB e Talis Ferreira, do PR, longe do comando da Câmara.

Compensação – Acordos assim não são incomuns. Contudo, havia um obstáculo a superar: dos seis integrantes do grupo, cinco manifestaram interesse em dirigir o Legislativo. A presidência confere mais visibilidade ao vereador e o poder de definir a pauta, o que não é pouco num cenário em que todos brigam pelos holofotes. Como são apenas quatro anos, um deles teria de abrir mão do cargo. Felipe Kinn da Silva concordou em deixar a vaga para os demais, em troca de uma compensação: o direito de indicar o secretário-geral da casa.

Diferenças – Feito o acerto, Kinn levou para a função mais importante do Legislativo um amigo de infância, que até demonstrou capacidade, mas não tinha a menor experiência. Em síntese, pesaram mais as relações pessoais do que o preparo na hora da escolha. E essa é a diferença entre o poder público e a iniciativa privada. Um empresário jamais colocaria no cargo de gerente alguém que não tivesse sólidos conhecimentos e perfil de liderança. Na Política, porém, isso ocorre a toda hora, com o agravante de que a conta é paga por todos nós, os contribuintes.

Recuo – A discussão da semana passada ocorreu, segundo o próprio Felipe Kinn, porque seu indicado teria dito, no fim do ano passado, que deixaria o cargo. Na condição de “dono” da vaga, o vereador esperava apontar o substituto. Contudo, o secretário-geral, depois de um momento “ser ou não ser” (Olha o Hamlet aí de novo), decidiu ficar. Como aparentemente o vereador já tinha prometido a secretaria-geral para outra pessoa, o clima azedou.

Velha política – O problema não é apenas a indicação política – não técnica – para uma função que requer preparo e com salário de R$ 8.362,42. Lamentável é que pessoas eleitas pela população com a promessa de renovação na Política continuem agindo dessa forma: usando os cargos que lhes foram concedidos para satisfazer interesses pessoais. Ou alguém acha que esse tipo de negociação traz algum benefício para a coletividade?

Grandes causas – É verdade que a Câmara de Montenegro, comparada com outras, tem uma estrutura relativamente enxuta. Esse episódio, porém, mostra que ela poderia ser ainda menor. Por muitos anos, o cargo de secretário-geral foi ocupado por servidores concursados, a um custo bem menor do que o atual para o erário. Como ensina… Shakespeare, “ser grande é abraçar uma grande causa”. Alguém se habilita?

Preservação ambiental
O vereador Cristiano Braatz (MDB) apresentou projeto de lei que proíbe a distribuição, em Montenegro, de canudinhos e copos plásticos. A ideia é garantir a preservação ambiental, já que estes materiais demoram muito para se decompor e acabam poluindo rios e córregos. Também são responsáveis pela morte de animais, desde aves e peixes até mamíferos de grande porte, como bois e vacas, que os engolem sem querer junto com a água dos mananciais.

Hábitos
– Óbvio que o projeto não é unanimidade. Até porque a substituição do plástico significa maiores custos, que fatalmente serão repassados aos clientes. Porém não se pode permitir que, em nome da comodidade, a natureza seja destruída. É um bom momento para a sociedade repensar os seus hábitos de consumo.

Rapidinhas
* Com o fim do recesso, a Câmara de Vereadores volta a se reunir na próxima semana. A primeira sessão ordinária será na quinta-feira, dia 7.

* Vereadora Josi Paz (PSB) publicou fotos nas redes sociais em que aparece trabalhando no relatório final da CPI do Loteamento Bela Vista. A postagem rendeu várias curtidas, mas muita gente acha que, agora, como mãe, ela deveria dar atenção integral à recém-nascida Joana Aurora.

* Com a morte de Janete Zirbes, a Câmara perdeu, nesta terça-feira, uma de suas mais eficientes e dedicadas funcionárias. Ela ingressou no Legislativo em 1993, na área administrativa. Depois foi assessora do vereador Roberto Braatz e, por fim, do seu filho, Cristiano Braatz. Vítima de câncer, estava afastada das funções desde dezembro. Vai deixar saudades entre colegas e amigos.

Voltando atrás
Nas redes sociais, segue bombando a história do reciclador que, todos os dias, deixa dois carrinhos de coleta “estacionados” na principal rua do Centro, ocupando até quatro vagas de veículos. Pelo menos uma delas é “reservada” a um vendedor de lanches e sua towner. Semana passada, a fiscalização da Prefeitura notificou o infrator para que ele abandone esta prática. E, é óbvio, muita gente foi para o Facebook criticar o poder público. Funciona assim: quando a Prefeitura não exige o cumprimento da lei, as pessoas reclamam; e quando faz o seu trabalho, reclamam mais ainda.

Ação pedagógica – Até aí, nenhuma novidade. Curiosa foi a postura do prefeito Kadu Müller. Durante uma entrevista na Rádio América, o chefe do Executivo lamentou a atitude da fiscalização. Sim, exatamente isso! “Na reunião de secretários, eu disse que era para explicar o que estava acontecendo. Infelizmente, entregaram uma notificação. Informaram que estava cometendo um erro. Me solidarizo com o reciclador. Não foi um ato ilegal, mas eu pedi para não notificá-lo. Isso não deveria ter ocorrido. Era para ser uma ação pedagógica”, disse sua Excelência.

Pressão – Não satisfeito em desautorizar a ação dos servidores públicos, Kadu foi além: “Agora quero o mesmo comprometimento da fiscalização com outras ações que causam transtornos na cidade e a mesma repercussão”, atacou.

Aos fatos:
1 – Os comerciantes da Ramiro reclamam da falta de vagas para seus clientes e pediram providências (legítimas) em relação à irregularidade cometida pelo reciclador;
2 – o reciclador já havia sido advertido verbalmente de que não podia deixar dois carrinhos parados, segurando vagas para terceiros, quando há idosos e deficientes que não conseguem estacionar no Centro;
3 – a fiscalização cumpriu seu papel e entregou uma notificação – não se trata de multa, mas de aviso;
4 – diante das críticas da população, o prefeito tomou as dores do infrator e não dos comerciantes prejudicados, que pagam seus impostos para terem uma cidade minimamente organizada;
5 – e, mais ainda, diz que “agora” vai cobrar que a fiscalização seja mais eficiente diante de outras infrações que ocorrem na cidade.

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