À medida que a CPI do Plano de Carreira avança na Câmara, vai ficando mais claro o papel do próprio legislativo no processo que resultou num aumento absurdo das despesas com pessoal a partir de dezembro de 2015. No sistema republicano, de independência e harmonia entre os poderes, as relações entre Executivo e Legislativo assumem dinâmica muito parecida com a de um casamento: quando um não quer, os dois nada fazem. Ainda que o prefeito Aldana e seus principais assessores quisessem a aprovação da matéria a todo custo, para garantir o voto do funcionalismo nas eleições do ano seguinte, não fossem os vereadores, nada “disso” teria acontecido. Dos dez integrantes da Câmara, nove votaram a favor e, assim, tornaram-se cúmplices da crise que se instalou. A pergunta é: agora, a CPI vai buscar a sua responsabilização também ou deixará a conta do estrago toda nas costas do prefeito, que era secretário de Administração naquele momento?

Não faltaram avisos
O vereador Roberto Braatz (MDB) fez vários alertas aos colegas antes de votar contra a proposta. Primeiro, que as contas não fechavam. A simples modificação do padrão de referência do funcionalismo já somava uma despesa superior a R$ 300 mil, excluídos todos os aumentos de nível e avanços decorrentes da qualificação. Além disso, com a crise na economia nacional se instalando, havia indícios de queda na arrecadação nos anos seguintes. Logo, não era hora de gastar mais com salários. E, finalmente, que o projeto era amplo e complexo demais para ser votado em apenas um mês, sem maiores debates, por exemplo, sobre os ganhos para o contribuinte.

Irresponsabilidade
Ninguém deu ouvidos aos alertas porque os vereadores também estavam de olho nos dividendos eleitorais que a aprovação traria na eleição de 2016. Ari Arnaldo Müller, Carlos Einar de Mello (Naná), Dorivaldo da Silva, Gustavo Zanatta, José Alfredo Schmitz, Márcio Müller, Marcos Gehlen (Tuco), Renato Kranz e Rose Almeida engoliram alegremente os números que lhes foram apresentados e enterraram qualquer chance de investimento em melhorias no Município.

Poder relativo
É compreensível que, em determinadas situações, o prefeito e os demais integrantes do Executivo se sintam meio reféns do funcionalismo. Afinal, juntos, os servidores do quadro geral somam em torno de 1.600 almas. Supondo que cada um consiga influenciar os votos de mais quatro pessoas, geralmente familiares e amigos muito próximos, o contingente de pessoas trabalhando a favor ou contra determinada candidatura pode ser de até 8 mil pessoas. Numa realidade em que o total de votantes é 47.257, representam 17% do bolo. Se a maior parte desse contingente escolher o mesmo candidato, as chances de vitória aumentam exponencialmente.

Façam as contas!
A situação é completamente diferente quando se trata da Câmara de Vereadores. Numa disputa com mais de 100 candidatos, os votos do funcionalismo são pulverizados e o que sobra para os vereadores que já exercem mandato é muito pouco. A prova: apesar de nove deles terem sido favoráveis às mudanças no plano de carreira, que garantiram generosos aumentos a todos os funcionários do quadro geral, somente Rose Almeida se reelegeu e com bem menos votos do que na disputa anterior. Apesar da identificação histórica com a categoria, na qual se aposentou, a queda foi gigantesca. De 1.287 em 2012 para apenas 870 em 2016. A perda foi de aproximadamente 30% e mostra, no mínimo, uma certa ingratidão.

Hora de pagar
Quando titubeiam em votar projetos que podem ferir os interesses da categoria, os vereadores, muitas vezes, esquecem que Montenegro é maior do que funcionalismo público. A CPI precisa ir a fundo e mostrar que, desta vez, suas excelências sabem, no mínimo, fazer contas. E quem errou no passado precisa ser responsabilizado.

_____________________________________________________________________

De graça, não!
Fazia tempo que a Câmara de Vereadores não ficava tão lotada quanto na última quinta-feira. Na sessão comemorativa dos 146 anos do Município, ocorreu a entrega dos títulos de Cidadão Montenegrino a Paulo Sérgio Bettega Pimental, José de Jesus Cirne da Silva e Jorge Alberto de Almeida. Com apresentações de corais e até uma aventura do prefeito Kadu Müller no mundo artístico, entoando o “Canto Alegretense” ao lado do tradicionalista Paulo Augusto Petry, a nota negativa do evento foi a ausência de dois edis. Valdeci Alves de Castro, do PSB, e Erico Fernando Velten, do PDT, não compareceram, numa lamentável falta de respeito aos homenageados.

“Dá nada” – É provável que Valdeci e Erico aleguem que tinham outro compromisso ou mesmo que estavam doentes. Podem também simplesmente silenciar, já que faltar a uma sessão solene ou comemorativa “não dá nada”. Nem mesmo desconto no polpudo salário de R$ 6.386,48 que os deixa na obrigação de comparecerem ao Legislativo, pelo menos, uma vez por semana, às quintas-feiras à noite. Pelo regimento interno, a perda só ocorreria caso tivesse havido “ordem do dia” e votações. Felizmente, parece que a regra vai mudar e os faltosos – já ocorreu outras vezes – sentirão o preço do descaso no bolso.

Sem fatiota – A ausência dos dois vereadores provocou piadas entre o público e os assessores. Há quem diga que ambos não são muito afeitos ao “paletó” e à gravata, obrigatórios em eventos desse tipo. Com dizem os estilistas, tem gente que sente alergia ao bom gosto.

Artista – E sobre o desempenho vocal do prefeito Kadu Müller, até que ele “mandou bem”. O público curtiu. Se nada mais der certo…

_____________________________________________________________________

RAPIDINHAS
A instalação de um tótem com a frase “Eu amo Montenegro” no Parque Centenário, ao lado do qual é possível fazer belas fotos, foi uma boa sacada. Mas tanto a população quanto o governo precisam provar que estão apaixonados com gestos e ações.

A licitação que previa uma repaginada no Cais do Porto, em frente à Câmara de Vereadores, foi deserta. Que bom! Seria ridículo embelezar uma pequena extensão quando poucos metros antes e alguns metros depois o talude está desmoronando. Nesse caso, é melhor devolver logo os recursos ao governo federal.

_____________________________________________________________________

Diferenças
Vereador Cristiano Braatz (MDB) foi ao Ministério Público supostamente para entregar denúncias de fraudes em licitações da Prefeitura. Divulgou até um vídeo, mas como não diz do que se trata, a Administração não consegue se defender. Jogo baixo. Num exercício de empatia, imaginem o prefeito Kadu publicando um vídeo nas redes sociais para dizer que tem indícios de grave irregularidade na Câmara, sem informar o que é. O mundo viria abaixo na sessão seguinte e ele seria chamado de “moleque”. No mínimo.

_____________________________________________________________________

Nanismo
O ex-vereador Ari Arnaldo Müller confirma: depois de longa militância no PDT, migrou para o Progressistas. E aproveitou para dizer que não vê grande futuro na sua antiga legenda, graças à forma como o ex-deputado Paulo Azeredo e seus aliados comandam o partido. Além dele, outros seis pré-candidatos a vereador estariam fazendo a malas, o que pode transformar a sigla de Brizola num nanico em 2020.

Sem vínculo – Müller garante que a mudança de endereço político nada tem a ver com a ocupação de algum cargo na Prefeitura. “Estamos conversando, sim, sobre a Secretaria de Desenvolvimento Rural, por conta da experiência que tenho nesta área”, afirma. “Mas o meu ingresso no Progressistas não depende disso. Não preciso de salário da Prefeitura”, arremata. Ele o prefeito Kadu devem se reunir hoje.

De volta ao aconchego – Ao mesmo tempo em que perde filiados, o PDT também conquista uma adesão. A ex-vereadora Iria Camargo, após escalas em várias legendas, do Progressistas ao PCdoB, volta ao mesmo “aeroporto” de onde decolou nos anos 80. O presidente regional, Pompeo de Mattos, abonou sua ficha semana passada.

Deixe seu comentário