No futebol ou em qualquer outro esporte coletivo, a conquista de um título depende sempre do grupo. Jogadores dedicados, seguindo um esquema tático claro, que aproveite as habilidades individuais em benefício de todos são regras de ouro para chegar à vitória. À frente, deve estar um técnico capacitado, experiente e com liderança incontestável, disposto a ouvir, a reconhecer erros e a mudar peças quando elas não rendem o esperado. É por isso que, em caso de fracasso, é a cabeça dele que a torcida pede primeiro. Não é diferente na política. Quando as coisas não vão bem, a população, tal qual uma arquibancada enfurecida, começa a pedir a substituição do treinador. Talvez o prefeito Kadu Müller não tenha percebido, mas a “geral” está ensaiando as primeiras vaias. Ainda não se ouviu gritos mais estridentes de “Fora Kadu”, mas, aos sussurros, já existe muita gente se perguntando se não deve haver uma nova mudança no “vestiário”. Seria a terceira em apenas quatro anos, com enormes prejuízos para o time e uma certeza para a torcida: a de que o troca-troca não levará os montenegrinos a nenhuma vitória no curto prazo. Mas nem todos pensam desta forma.

Cansados – A principal causa da “gritaria é a situação de abandono em que se encontra o Município. Para onde se olha, há buracos e estruturas comprometidas pelo tempo e pela falta de manutenção. Quinta-feira, da tribuna da Câmara, alguns vereadores bateram firme no governo. Estão cansados de receber as queixas da população e não ter respostas. E, muitos menos, melhorias para mostrar.

Trabalho coletivo – A situação é tão grave que até o vereador Valdeci Alves de Castro (PSB), um dos principais aliados da Administração na Câmara, mandou às favas a moderação. “Não sou governo e não sou oposição. Sou montenegrino”, disparou o socialista. Seu principal alvo é a Secretaria de Viação e Serviços Urbanos. Valdeci acredita que seus pedidos, assim como os de outros colegas, estão sendo boicotados. Chegou a sugerir que as solicitações de providências passem a ser feitas de modo coletivo, com as assinaturas de todos os vereadores.

Reeleição – Alguns vereadores começam a perceber, com atraso, que seu sucesso também depende dos acertos do governo. E, por isso, “bateu o pavor”, como os mais jovens costumam dizer. É o caso de Neri de Mello Pena, o “Cabelo”, do PTB. Uma frase dele resume esse sentimento. “Se nós formos fazer campanha com a cidade desse jeito, nenhum vereador se reelege”, declarou. E como a maioria tem planos de continuar na Câmara, remover o prefeito passou a ser uma possibilidade.

Sobras – Os vereadores já sabem que, ao final do exercício de 2018, haverá uma sobra orçamentária na Câmara superior a R$ 1,5 milhão. Esse dinheiro, na prática, pertence ao Município e precisa ser devolvido. Quanto a isso, nenhuma dúvida. Contudo, Talis Ferreira (PR) quer “carimbar” a verba, arrancando do prefeito a promessa de que seja integralmente aplicada em melhorias nas ruas da cidade. Se os colegas concordarem, vai chamar o chefe do Executivo para discutir os termos.

Recapeamento – A ideia do vereador Talis é repetir algo que foi feito pelo ex-prefeito Percival de Oliveira no fim de seu primeiro mandato, em 2008. Na época, por licitação, ele contratou um serviço de recapeamento das ruas com uma camada mais fina de asfalto, privilegiando aquelas que estavam mais danificadas, onde as simples operações tapa-buracos já não davam resultado. Embora considerada uma medida eleitoreira, na prática, acabou se revelando eficiente. Tanto que, em muitos locais, a cobertura resiste, mesmo tendo passado já dez anos.

Na pressão – Obviamente, os vereadores não têm poder para obrigar o chefe do Executivo a fazer o que eles desejam. Como ordenador de despesas, o prefeito Kadu pode simplesmente ignorar o pedido e usar a verba em outras frentes. Só que isso teria um preço político muito alto e a palavra “impeachment”, que voltou a ser pronunciada no Legislativo, ainda aos sussurros, pode ter seu volume aumentado em alguns decibéis.

Interesses – Há que se ponderar, também, que a política não é endereço de gente boazinha. É bem provável que certos vereadores queiram indicar as ruas a serem recapeadas para agradar a seus próprios eleitores. Não seria a primeira vez.

Gestão – Na opinião de alguns vereadores, não há como negar o peso da crise nas finanças públicas. Realmente, o dinheiro anda curto depois que o governo optou pelo novo plano de carreira do funcionalismo como prioridade. Por outro lado, suas excelências acreditam que falta competência na gestão. Máquinas continuam paradas por falta de peças e de manutenção, apesar das reiteradas promessas de solução desses problemas.

Cautela – O bom senso recomenda que os vereadores tomem cuidado. Um novo processo de cassação, em primeiro lugar, teria de ser ancorado em algo muito grave, uma denúncia que coloque em dúvida a idoneidade do prefeito. Em segundo lugar, o clima de incerteza política afasta investidores. Com que apetite um empresário vai investir numa cidade que tem novo comando a cada dois anos?

Sua majestade
O presidente da Câmara, Erico Velten, do PDT, continua comandando a “casa” como se uma coroa repousasse sobre sua cabeça. Semana passada, Talis Ferreira, do PR, teve de ameaçar que renunciaria ao cargo de secretário da mesa diretora para que o plenário fosse finalmente decorado com as fitas cor-de-rosa que historicamente simbolizam a adesão do Legislativo ao Outubro Rosa, a campanha de prevenção ao câncer de mama e de colo do útero. E isso que Rose Almeida, do PSB, já havia passado uma descompostura no presidente na sessão anterior.

Banheiros –
Outro foco de atrito entre o presidente e os colegas é um prédio do Município situado ao lado da Usina, que encontra-se vazio. Alguns vereadores querem que a Câmara assuma a responsabilidade sobre a edificação para promover a abertura dos banheiros, que passariam a ser usados pelos frequentadores do Cais do Porto. Velten, porém, não assina o documento. Enquanto isso, as pessoas seguem transformando muros e árvores em mictórios a céu aberto.

Omissão –
No momento em que permitem que o Cais seja tratado dessa forma, os vereadores perdem estatura moral para reclamar do abandono da orla, onde o grande problema agora chama-se “desmoronamento”. Afinal, não estão fazendo nem aquilo que podem para manter a higiene em nosso cartão postal.

Rapidinhas
* O tempo passa, o tempo voa e os infratores continuam numa boa. Apesar das reiteradas promessas, a Prefeitura não dá jeito de assumir a fiscalização do trânsito. Virou terra sem lei.

* A Câmara de Vereadores, graças ao esforço de seus servidores, conquistou novamente um prêmio de Transparência. O cidadão só não acompanha o trabalho dos seus representantes se não quiser. Está tudo no portal www.montenegro.rs.leg.br.

* Vereador Joel Kerber (Progressistas) não teme que a vitória de Eduardo Leite para o governo do Estado possa comprometer o projeto das rótulas da RSC-287. Segundo ele, ainda que o candidato tucano ganhe a disputa e leve adiante seu projeto de privatização da Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR), não daria tempo de vendê-la antes das obras ocorrerem. Oremos!

* A Administração Municipal enviou para a Câmara projeto de lei criando o Serviço de Verificação de Óbito, para emissão do atestado, por um profissional do Município, quando a pessoa falecer em casa, sem assistência médica. Medida de inegável alcance social, deve ser aprovada por unanimidade.

* Outra boa notícia. Na quinta-feira, o prefeito Kadu Müller assinou o contrato que permitirá, finalmente, a reforma da Biblioteca Pública Municipal e melhorias no Teatro Roberto Atayde Cardona. O investimento será de quase R$ 300 mil. Os livros estão exilados no Parque Centenário desde o início de 2013.

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