Hoje não vou falar sobre fé, sobre desenvolvimento interno ou sobre conexão com o universo. Vou falar sobre a conexão com o outro… com a tristeza de cada um.

Poucos dentre nós sabem o que é sentir os sintomas da doença que aflige a humanidade, sentir as forças faltarem, o ar rarefeito, as dores. Sentir a solidão de se perceber doente e o medo de que essa doença se alastre no meio daqueles que amamos. Poucos sabemos o que é ir ao atendimento médico, confirmar-se positivo, despedir-se à distância de quem estava conosco, ver-se em um ambiente de máscaras e odores, barulhos de equipamentos médicos, choros contidos. Poucos sabemos o que é ver o sorriso do olhar por traz das máscaras e a coragem e o carinho daqueles que estão ali para nos ajudarem. Poucos sabem o que é despedir-se por telefone, sem o toque do abraço ou o sorriso do rosto, poucos sabem o que é a solidão da partida. Mais de oitenta mil pessoas sabem o que é isso e, infelizmente, conversam hoje com anjos sobre a tristeza dessa experiência…

Poucos sabem o que é perceber seu amado doente, ver os sintomas aparecerem, ver o medo nos olhos, ver a preocupação estampada. Poucos sabem o que é levar ao atendimento médico seus amados, ver-se vulnerável diante do mal que assola o mundo e o quão dolorido é assistir ao sofrimento daqueles que amamos. Poucos sabem o que é torcer, orar, suplicar pela melhora e pela cura, pelo restabelecimento das faculdades e pelo toque carinhoso e o cheiro do abraço. Poucos sabem o que é ver seu amado despedir-se por telefone, acompanhar o silêncio que sucede a descoberta, a angústia da falta de informação, a tristeza que se avizinha ao vazio e a falta da presença. Poucos sabem o que é não ouvir mais a voz, não sentir mais a presença, o calor, a atenção, não receber os conselhos, não ouvir os sorrisos. Poucos sabem o que é enterrar um amado, sem a oportunidade de se despedir… mais de oitenta mil famílias sabem o que é isso e, hoje, oram a Deus para que as almas estejam confortadas…

Poucos sabem o que é se afastar da família, olhar para quem chega em seu local de trabalho e dedicar amor, entregar seu melhor, orar, suplicar e torcer pela recuperação, torcer pelo familiar que fica na recepção aguardando informações, torcer pelo que silencia em meio a medicamentos, aparelhos e sons. Poucos sabem o que é o esforço sobrehumano de dar-se ao próximo, de entregar sua vida às pessoas que sofrem nos hospitais, ou às famílias que sofrem nas casas na espera de boas notícias. Poucos sabem o que é lutar contra um inimigo invisível, sem armas adequadas, mas com a certeza de que, ao final, tudo deve acabar bem… mais de oitenta mil vezes não acabou bem. Poucos sabem, mas mais de oitenta mil pessoas chegam hoje cansadas depois de um turno de trabalho, tristes, solitárias e impotentes, sabendo que amanhã tudo recomeçará novamente.
Vamos pensar nos que partiram, sentir suas dores e tristezas… Pensar nas famílias e enviar para elas nossos sentimentos e nossa compaixão… pensar nos que lutam e dizer obrigado!

Mais de oitenta mil pessoas no Brasil desencarnaram… Mais de oitenta mil pessoas sofreram a perda de seus amados… mais de oitenta mil profissionais acompanharam de perto as dores dos que partiram, o sofrimento dos que ficaram e a impotência das batalhas perdidas. Vivemos em uma cidade com cerca de sessenta e quatro mil pessoas, é como se, em cinco meses, nossa cidade desaparecesse…

Felizmente, mais de cem mil pessoas conseguiram vencer essa batalha. Obrigado a Deus, aos profissionais, aos familiares que lutaram juntos e aos doentes que enfrentaram e superaram esse caos! Fiquem bem, saudáveis, atentos e com fé, pois a vida é muito tênue…

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