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Acredito que nunca antes na vida ouvi falar tanto a palavra “essencial”. Dizem que apenas os serviços essenciais poderão continuar funcionando. Faz todo o sentido do ponto de vista de uma luta contra o coronavírus. Mas me colocou algumas interrogações na mente. O critério para definir o que é ou não essencial pode até ser claro no que diz respeito à pandemia e às regras sanitárias: comércio de alimentos, farmácias, transporte público e o jornalismo são exemplos de locais/serviços essenciais e por isso seguem cumprindo suas funções durante a quarentena. Mas, individualmente, essa definição será que é tão clara assim?Parece-me que o momento difícil pelo qual passamos tem ajudado a mostrar para cada cidadão o que realmente é essencial para a sua existência.

E aqui não estou falando daquele clichê tão repetido e pouco refletido de que o “verdadeiro valor da vida está na família e não nos bens materiais”. Isso é obviamente verdade. Nada supera em relevância termos quem amamos bem e por perto. Mas há coisas materiais e imateriais que me importam muito e das quais eu sinto falta, sim. Desde março, eu – e todo mundo – não vou ao cinema. E hoje, se me perguntarem, afirmo com convicção que a sala escura é sim essencial, para mim pelo menos. Não estou aqui sugerindo que abram irresponsavelmente as salas, sejam de shopping ou de rua. Elas nem teriam lançamentos para apresentar aliás, já que as produções pararam pelo mundo todo. Mas é inegável que hoje eu dou mais valor ao cinema que antes. E não há Netflix que substitua a sensação que só o cinema me traz.

E, por falar em shopping… que saudade de sair por aí experimentando sapatos ou provando blusinhas. É claro que isso está longe de ser considerado essencial. Mas eu estou com saudade de bater perna por aí enquanto faço comprinhas. De preferência, com as amigas. Pra mim, isso é sim… essencial. E vou fazer a quarentena certinha, obedecendo às orientações das autoridades para que isso tudo termine mais rápido e eu possa chamar as amigas para aquela tarde das meninas. O mesmo posso dizer sobre fazer refeições fora de casa. Aos entregadores, todo o meu respeito e agradecimento. Mas, quando a Covid-19 for passado – e somente neste momento, nem um dia antes que seja – tudo o que eu vou desejar é ir aos bares e restaurantes da cidade. Futebol? Bom… na minha lista de essencial, ele não passa nem perto. Mas eu reconheço que sim, a volta do esporte é essencial para muita gente.

Trabalho é essencial, todos concordam. E, por trabalho, não entenda renda, salário ou dinheiro. Tudo isso é essencial no sentido mais puro da palavra. Mas trabalho como função e como motivação também são essenciais na vida. Trabalhar, ter uma função, fazer a diferença na vida de alguém – ou de alguns – eu considero essencial. Por isso, compreendo o sofrimento dos que estão enfrentando esses dias sem emprego. Pergunte para o vendedor de uma loja que teve na sua carteira de trabalho registrada a demissão, qual o sentido que ele dá a palavra “essencial”. Talvez seja diferente que o seu.

No final das contas, a única certeza possível é que ninguém vê a vida da mesma forma, sente as mesmas dores ou dá os mesmos sorrisos. O essencial pra uns é dispensável para outros. Se a gente, na maior parte do tempo, ainda está descobrindo o que é essencial para si mesmo, como quer julgar o que deveria ser importante ou não para os outros? Não, impossível! E perda de tempo.

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