Cássia Oliveira
Jornalista, editora
do Jornal Ibiá

Quando a gente vive ao lado de alguém cotidianamente, a passagem do tempo nos prega uma peça e as mudanças vão ocorrendo tão discretamente que não percebemos. Quando a mãe vê, o filho passou de bebê para menino. Um dia, a gente olha no espelho e pensa: “de onde vieram todos esses cabelos brancos?”. Foi dia a dia, mas você perdeu, ocupado, olhando outras coisas.
Assim também é com a cidade em que moramos. Ela muda diariamente, para o bem e o mal, mas, por a conhecermos desde que nascemos, nem sempre percebemos. Talvez por isso os migrantes enxerguem coisas que os nativos não consideram tão especiais. É diferente para quem veio de fora.
Apesar de, oficialmente, ter nascido em Porto Alegre, considero-me canoense. Afinal, foi lá que vivi quase toda a vida até aqui. Há quatro anos, passei a ter em Montenegro parte da minha existência, a profissional. Mas trabalhar numa cidade não é o mesmo que morar. Descobri isso apenas há dois anos, quando, enfim, finquei bandeira em solo montenegrino. Aí eu passei a entender algumas coisas que antes eu ouvia do povo daqui, mas não compreendia exatamente. E também passei a ter raiva de alguns comentários que ouço pelas ruas. Montenegrinos, ouçam essa canoense: vocês não reconhecem algumas maravilhas que têm. E, por não reconhecerem, não cuidam, não preservam e não valorizam.
Não pensem com isso que estou desmerecendo a minha cidade. Longe disso. Canoas, assim como qualquer lugar, tem seus problemas e suas qualidades. É bom ter um trem que te leva em 10 minutos até a Capital. Mas é péssimo ter que atravessar uma passarela para ir ao bairro vizinho. Mas não é de Canoas que quero falar. É de Montenegro e do que os montenegrinos parecem não ver. Você sabe quanto qualquer canoense estaria disposto a pagar para poder, num sábado pela manhã, chimarrear olhando para o Rio Caí? Perdi a conta de quantas vezes postei, em redes sociais, fotos da beira do rio que encantaram amigos que não têm este cenário como corriqueiro. Mas quantos, dos mais de 60 mil habitantes de Montenegro, aproveitam de forma sustável o local e, apropriando-se dele, lutam para mantê-lo bem cuidado?
Outra questão é a segurança pública. Ouço muitos comentários de que não é mais tranquilo viver aqui, que a violência chegou ao interior e coisas do tipo. Talvez porque a minha base comparativa está ancorada nas vivências em Canoas e Porto Alegre, aqui me sinto no céu. Se vou a um bar à noite, volto pra casa caminhando tranquilamente. Quando estou na Capital, parar em um semáforo me traz angústia. Olho para os lados nervosamente.
Isso não significa que os montenegrinos devem ignorar os problemas da cidade. Ao contrário, sabendo que temos um lugar bom, com qualidades, precisamos agir para manter as coisas boas e lutar para melhorar o que nos desagrada. É a velha história do copo meio cheio ou meio vazio. Cada um vê como quer. Se a gente só enxerga uma terra arrasada, sem belezas, estamos entregando os pontos, desistindo da luta. E isso não combina com uma gente de tantas façanhas. Pode até ser um olhar adocicado de migrante… mas melhor doce do que azedo, não acham?

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