Não deveria. Mas causou surpresa aos gaúchos uma cartinha ao Papai Noel escrita por uma criança de Santa Cruz do Sul. É que o menino Pedro Zilch, de família humilde, ao fazer seus pedidos ao Bom Velhinho, elencou inicialmente dois sacos de milho e um pelego para o seu cavalo de estimação, o Gateado. Depois pediu para si um celular e bolitas. Quando a história ganhou as redes sociais, o menino, que perdeu a mãe e mora com o pai e dois irmãos, recebeu vários presentes de ajudantes do Papai Noel.
Histórias como a do Pedro não surpreendem quem exercita a solidariedade. Quem vai aos Correios e adota cartinhas para presentear a cada Natal sabe bem disso. Aliás, aí fica uma sugestão. Tire algum tempo para ler o que os jovens montenegrinos pedem e muitos o emocionarão, tenho certeza. Tem quem pede uma cesta básica para encher os armários da casa. Há quem solicite um emprego para o pai. Muitos desejam material escolar em dezembro porque sabem que a família não terá condições de adquirir em março, quando o ano letivo iniciar. E sim, há os que pedem bonecas, carrinhos, caminhões de bombeiros, bolas e chuteiras. São crianças e têm de pensar em brinquedos.
O mais fantástico em cartinhas como a de Pedro é a capacidade de enxergar o outro. Não tem nada de errado em uma criança querer bolitas ou um celular no Natal, mas ela pedir por comida e conforto para o seu cavalo é sinal de que há bondade nesta geração que vem aí. Pedro mostrou-se capaz de olhar para os outros, inclusive os de quatro patas, ver sua necessidade e colocá-la acima do seu desejo. Um belo exemplo de altruísmo. O curioso é que parece mais fácil reclamarmos das nossas vidas e problemas sem olhar para o lado. E se não conseguimos sequer ver, quanto mais estender a mão e ajudar aos demais. Na maior parte das vezes, a gente nem percebe o problema alheio, mesmo que este seja muito mais grave que qualquer dificuldade que possamos ter.
Exemplos dessa incapacidade de compreender o outro são vistos aos montes. “Quem é rico é que tem de ajudar”, ouço por aí, quando bem sabemos que raramente estender a mão implica em valores que comprometerão o orçamento da família. Quer outro exemplo? A sociedade gaúcha se mobilizou contra as mudanças no pagamento do IPVA e fez o governador voltar atrás na decisão de acabar com o parcelamento. Mas há quatro anos os funcionários públicos estaduais recebem parcelado, sem que os demais gaúchos façam qualquer movimento de pressão por mudanças. Os professores agora estão em greve porque foram extremamente sacrificados em um pacote de propostas do Governo Estadual para mudanças na carreira do magistério. Os demais funcionários públicos do RS, de todos os poderes, vão prestar apoio? Ou ficarão calados até que sejam atingidos? Vamos nos inspirar no Pedro e olhar em volta. Não é apenas o Gateado que, sem voz, precisa de apoio.

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