Jogue a primeira pedra quem nos últimos dias não sentiu o coração aquecer a cada notícia de reabertura de lugares ou retomada de serviços pela cidade. Mesmo quem acredita que determinadas flexibilizações são precipitadas, lá no fundo, sente que as coisas começam a entrar nos eixos. Essa semana, o cinema de Montenegro voltou a receber público e o Parque Centenário teve os portões abertos, além dos campeonatos de futebol sete terem comeaçado.

A vida voltou ao normal? O velho normal mesmo, aquele que eu, você e todos nós conhecemos? Não, nem pensar. Até porque a capacidade do Cine + Arte Tanópolis foi bastante reduzida e ainda não dá pra reunir a galera toda e lotar uma fileira completa da sala só com a sua turma. Culpa do – necessário – distanciamento social. No Parque Centenário, as fitas de isolamento no banheiro avisam que normal mesmo não está, ainda. E a falta do público e daqueles churrascos de confraternizações típicos dos fins de jogo no Cantegril e no Grêmio Gaúcho são mensagens que a vida nos oferece. Elas dizem claramente: calma que não é bem assim. Enquanto o velho normal não chega de volta – isso aparentemente depende da vacina contra a Covid-19 – a gente terá de aceitar que as exigências que 2020 acrescentou no nosso dia a dia foram muitas.

Polêmica mesmo foi a trazida pelo fictício retorno das aulas na Rede Estadual de Ensino. Era para os alunos do Ensino Médio terem voltado às salas de aula na última terça-feira, mas a verdade é que as escolas estão longe de uma normalização. Grande parte dos professores é contra o retorno, alegando falta de segurança. Isso é totalmente compreensível. Achar que um educador poderá, além de cumprir as suas muitas funções, ainda fiscalizar o distanciamento entre as crianças me parece ideia de quem nunca esteve numa sala de aula. Muitos alunos e pais estão inseguros. Isso também é normal. Primeiro porque eles estão arriscando o bem mais importante que têm. Além disso, as crianças e adolescentes não são seres que vivem em separado. Nas suas casas, há idosos, pessoas com diabetes, pressão alta ou problemas respiratórios. Portanto, mandar uma criança para a escola, na teoria, seria colocar a família em risco.

Então é bom não terem retornado as aulas na maior parte das escolas (Só o São João Batista teve aula)? Não! Isso mostrou apenas – e mais uma vez – a falta de gestão na esfera pública. Se o Governo do Estado tivesse anunciado que, por motivo de saúde, adiaria o retorno, seria uma decisão baseada em fatos, em estudos, em prevenção. Seria aceitável. O que se viu, porém, foi que os equipamentos de proteção não chegaram. A pergunta que fica é: se nós sabíamos que em algum momento o ano letivo seria retomado, por que máscaras, tapetes sanitizantes ou material de limpeza ainda não estão nas escolas? Seis meses de escolas fechadas não foram tempo bastante?

É muito bonito quando o Governo do Estado apresenta seu discurso de que “não faz sentido liberarem eventos e espaços de lazer se as escolas estiverem fechadas”. Eu concordo com esta linha de pensamento. A educação deveria ser sempre prioridade. E a abertura de tudo antes das escolas diz muito a respeito dos valores da nossa sociedade. Mas esse discurso se esvazia quando o próprio Executivo Estadual não oferece as mínimas condições para que as escolas reabram com segurança. Acredito no bom senso na hora de resolver qualquer impasse. Não é simplesmente porque o cinema está aberto que as escolas têm de abrir.

Há diferença entre receber 70 adultos, sabedores das regras e respeitando protocolos; e colocar centenas de adolescentes pra pegar ônibus em direção ao colégio e passar horas em construções que nem sempre têm a estrutura ideal. É claro que as aulas precisam ser retomadas. Mas a segurança para que isto ocorra tem de ser uma garantia do Estado e não motivo de apreensão para pais e professores.

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