reprodução Pixabay

Quando 2020 começou, eu estava esperançosa e cheia de planos. A expectativa era deixar para trás um ano chatinho, de desgraças e más notícias. Esperava um ano de retomada dos estudos e muito trabalho. Agora iniciamos o quarto mês e tenho a sensação que ele, na prática, não começou. Os dias vão passando no calendário, o Outono chegou, o amanhecer já demora mais a cada dia. Mas, na realidade, a vida parou. Eu realmente retornei à universidade e estou trabalhando como nunca, já que o jornalismo, como serviço essencial, não para. Acelera. Ganha corpo e relevância. Mas a verdade é que não foi assim que eu sonhei e planejei. Quando os fogos de artifício davam boas-vindas a 2020, nem eu e ninguém podia imaginar o abalo que estava por vir.
Com diferença de 10 dias saímos, aqui em Montenegro, de um cenário com rodeio ocorrendo no parque para comércios fechados por força de decreto e ruas que deveriam estar desertas. Foi mesmo tudo muito rápido e é compreensível que a população tenha dificuldade em assimilar. Mas tenho uma constatação difícil a dividir com os leitores: nunca mais seremos os mesmos. Se é a sua vida, igualzinha a antes, que você espera receber de volta, desista. Ela acabou. Quando a tormenta passar, você será outra pessoa, modificada por essa pandemia. E, quando digo isso, não é em sentido figurado. Sua forma de olhar o mundo mudará sim, talvez saiamos disso tudo mais solidários. Mas a nossa vida vai mudar também de formas bem práticas. Em dias, alteramos hábitos de uma vida inteira.
Muitas empresas e escolas estão mantendo atividades quase que normais graças à internet. Através de chamadas de vídeo, mantêm suas atividades e, em alguns casos, descobrem novas possibilidades. É claro que lições ficarão dessa aprendizagem e, muito provavelmente, terá empresa que tornará habitual a facilidade do home office. E quantas donas e donos de casa descobriram agora, no susto, as vantagens da compra online e levarão o novo hábito para a vida futura? Essas possibilidades não surgiram agora, nós é que as descobrimos no momento da necessidade.
Tem mudanças bem “fofas” inclusive. Uma aconteceu na sala da minha casa. Eu tenho um sobrinho e afilhado, o Henrique, que este mês completa sete anos. Já falei muito dele aqui. Meu coração anda apertado de saudade porque ele vive em Canoas e eu em Montenegro. Como moro com minha mãe, uma idosa diabética e hipertensa, faz um mês que a visita do Henrique, antes semanal, não ocorre. Não preciso nem dizer o impacto que essa saudade está trazendo pra mãe, né? Não poder ver o neto é o pior que poderia lhe ocorrer. Ligações não resolvem isso. A saída? Vídeo chamadas pelo WhatsApp. Essa possibilidade já existe há muito tempo, você deve estar pensando. Sim, mas nós nunca a tínhamos utilizado por não ter sentido a necessidade.
Agora o Henrique conta para a vó suas brincadeiras e a rotina de estudo, mostra as receitas que tem feito em casa e até aconselha a dona Jussara a se cuidar do coronavírus porque, como explicou, “ele é muito pequenininho, a gente não consegue ver”. Quando tudo isso passar, a imagem que guardarei será dos olhos brilhantes da minha mãe vidrados na tela de um celular pela primeira vez na vida. Duvido que a dona Jussara no futuro se satisfaça em apenas ouvir a voz do neto. Não importará se logo ele virá a Montenegro. Ela vai querer vê-lo todos os dias e, não duvido, logo irá querer trocar seu antigo celular por um smartphone. Não, a nossa vida nunca mais será a mesma. E isso também tem seu lado bom. Basta se permitir olhar.

Deixe seu comentário