“Vamos brincar de índio
Mas sem mocinho pra me pegar
Venha pra minha tribo
Eu sou cacique, você é meu par”

Nascida em 1989, eu cresci ouvindo esta música, cantata pela Xuxa exaustivamente nos anos 90, junto de Ilariê, Lua de Cristal e outros sucessos da loura apresentadora. Assim como eu, muitos daquela geração não conheciam a cultura indígena muito além do que era cantado na música e o que viam na escola no dia 19 de abril, Dia do Índio. Na escola fazíamos cocar de penas ou colar com massa, e tínhamos o rosto pintado pela professora. Algumas turmas ainda ensaiavam uma versão da “dança da chuva”, que as crianças achavam ser idêntica à praticada nas tribos. Com o tempo, este tipo de representação do povo indígena foi mudando nas escolas.

Uma mudança lenta, é verdade. Uma década depois, numa passagem (rápida) pelo magistério vivi este dia escolar novamente. Recordo que em 19 de abril de 2007, o único Dia do Índio em que, na sala de aula, eu era a professora, construí com meus pequenos alunos – na casa dos seis anos – instrumentos musicais feitos de garrafa pet e sementes e canoas com algum material reciclável que já não recordo qual era. Os “trabalhinhos” eram uma desculpa para conversarmos sobre a cultura indígena, algo muito distante daquelas crianças, moradoras da área urbana de Canoas, que em sua maioria só conheciam rios e florestas de ver na televisão.

Passados mais 13 anos, continuo considerando aquela atividade válida e gosto de pensar que contribuí para que aquelas crianças, hoje cidadãos já maiores de idade (Jesus! O tempo não anda, corre!) tenham se tornado pessoas capazes de conviver com diferentes culturas. Mas, se hoje, 2021, eu estivesse em sala de aula, não teria feito a mesma atividade de 2007. E ainda bem que nós somos capazes de evoluir no que pensamos. Hoje compreendo que não, não vamos “brincar de índio” porque eles não devem ser tema de brincadeira, mas sim de sérias discussões. Segundo a Fundação Nacional do Índio (Funai), existem mais de 200 povos indígenas no Brasil. Também há referências a 70 tribos vivendo em locais isolados. Pessoas cujos costumes e riquezas nós desconhecemos já que nunca foram contatadas. E, se for para tratarmos como os que conhecemos, melhor que jamais tenhamos contato com estes mesmo. Pena que perdemos muito em não usufruir dos seus saberes.

Hoje, a grande maioria dos educadores evita vestir as crianças com cocares e pintar seus rostos. Assim como, felizmente, não mais se constrói ocas falsas no pátio da escola. Isso porque o índio não é uma figura mítica da qual nós possamos nos fantasiar. Também não faz sentido algum que nossos estudantes conheçam os índios apenas a partir de representações da época do descobrimento do Brasil. Atualmente, se privilegia discutir a temática indígena a partir da realidade destes povos, usando fotos, vídeos, música e a literatura. A cultura indígena faz parte das pessoas que as carregam, não é uma pintura nem um cocar.

Tem, ainda, algo que precisa evoluir. Precisamos lembrar dos índios, em sala de aula, para além do 19 de abril. Assim como outros países do continente Americano, o Brasil deve muito aos índios. Não só pelo que lhes tomamos, mas pela contribuição cultural que nos oferecem. Eles têm conhecimento e cultura demais para que ela siga restrita a ser discutida apenas uma vez por ano. Então, ao invés de brincar de índio, vamos refletir e celebrar a sua cultura.

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