foto: divulgação rede globo

Às vezes, a gente diz, meio sem pensar, que não vale a pena explicar determinado assunto ou levantar uma bandeira porque não adianta, não causa efeito. Entre os jornalistas, vira e mexe alguém diz que publicar tal matéria é como “secar gelo”. Mas aí vem uma pandemia que nos obriga a voltar no tempo em diversos sentidos e a gente percebe que, há apenas uma década, nós éramos muito diferentes.

As intermináveis reprises que a teledramaturgia nos apresenta atualmente demonstram isso. O ator Marcos Pigossi se envolveu numa polêmica online essa semana ao discutir o assunto. Ele comentou a novela Fina Estampa, reprisada pela TV Globo e na qual ele atuou. Chegou a dizer que a obra não deveria mais ser transmitida porque envelheceu e tem tantos absurdos que ele se sentia envergonhado. Na internet, houve quem respondesse negativamente, como o autor do folhetim, Aguinaldo Silva, que chegou a falar em censura. Mas muita gente lembrou que o Crô – personagem de grande sucesso na época, hoje causa estranhamento pelo estereótipo do gay escandaloso que gosta de ser humilhado pela patroa.

Nas redes sociais, noveleiros – eu me incluo nessa categoria – lembraram de uma cena do próprio Pigossi, onde o personagem seduz uma mulher e, mesmo com ela dizendo não, insiste até que ela, mais por constrangimento que por desejo, cede. Na época da novela, passou como algo normal a mulher se sujeitar ao que o homem quer. Hoje a campanha Não É Não, felizmente, faria com que tal cena despertasse incômodo no telespectador. O detalhe é que Fina Estampa foi transmitida originalmente em 2011. Isso mesmo, apenas 9 anos se passaram. Se observarmos outras obras de ficção perceberemos, em maior ou menor grau, coisas semelhantes em outras novelas, séries ou filmes. É que nós, enquanto sociedade, evoluímos e não percebemos.

Essa discussão artística e cultural – sim, as novelas fazem parte da cultura do brasileiro – me lembrou outra, desta vez na área literária. Há alguns anos, por acusação de racismo, a obra de Monteiro Lobato “As caçadas de Pedrinho” chegou perto de ser banida das escolas numa briga que foi até o Supremo Tribunal Federal. Isso, sim, seria um terrível ato de censura. Há, sim, racismo na obra que muitos brasileiros conheceram através do Sítio do Picapau Amarelo. Tia Nastácia, por exemplo, é definida em determinado momento como “uma macaca de carvão”. E não são apenas palavras que demostram isso. Tia Nastácia e Tio Barnabé, os dois personagens negros do livro, são retratados como pessoas sem vínculos familiares. Não têm sequer descendentes claros. Vivem uma existência infértil, unicamente para servir. A obra, claramente, reflete os preconceitos do próprio autor.

Mas Monteiro Lobato viveu de 1882 até 1948, quando faleceu aos 66 anos. Se nós ainda pensássemos da mesma forma como no tempo do autor, o problema estaria em nós. Está em quem pensa assim. Porque existem, apenas estão disfarçados de cidadãos de bem. Em 1900, já era errado, mas aceito pela sociedade. Hoje – e nunca mais – será assim.

Cada obra cultural representa o seu tempo e deve ser apreciada com o olhar adequado. Vou apresentar “As caçadas de Pedrinho” para o meu afilhado logo logo, assim que ele começar a ler. Mas ele saberá que, aquele “tio” que escreveu o livro não sabia o quão errado estava. A gente sabe e pensa diferente. Vamos conhecer a obra de Lobato, ver as reprises na TV, nos divertir com Pedrinho e a boneca Emília; e também com Crô, por que não? Mas, jamais, vamos nos referir a alguém como carvão ou achar normal um homossexual ser humilhado.

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