Os brasileiros estão se despedindo de muita gente, sejam famosos ou anônimos. Sim, nem só de Covid-19. As outras doenças e infortúnios seguem levando vidas como já ocorria antes. O coronavírus apenas acrescentou – muitas – vítimas. A quantidade de enterros realizados nas áreas em que a pandemia já avançou ao seu pico é assustadora. Mas o que me choca mesmo é a quantidade de casos de desrespeito à morte, à vida anterior e ao luto que temos presenciado.
Mesmo os casos sendo inúmeros, alguns merecem ser destacados. Quando, nas redes sociais, pessoas que se acham protegidas pelo anonimato debocham de enterros afirmando que os caixões estão indo vazios para as covas, elas ferem aqueles que lutam contra a dor de perder um ente querido. Quando o presidente da República responde com “E daí?” ou “Não sou coveiro” ao ser questionado sobre o número crescente de óbitos por Covid-19 no Brasil, ele fere quem já está marcado pelo luto, além de gerar incredulidade em qualquer cidadão de bem que consiga colocar o amor e o respeito ao próximo acima das preferências políticas.
Também no decorrer da pandemia, Montenegro registrou um caso do que a lei chama de vilipêndio de cadáver. Uma pessoa morreu no Hospital Montenegro e teve o corpo, embalado e identificado como possível vítima de Covid-19, fotografado no interior da instituição. Depois comprovou-se não se tratar do vírus a causa da morte, mas, aí, era tarde e a foto, segundo o diretor administrativo do HM, já circulava em redes sociais. O caso é investigado pela Polícia, mas nada apagará o fato daquela pessoa não ter sido respeitada após sua morte.
Essa semana, outro caso chamou a atenção dos brasileiros, em especial dos fãs da dramaturgia. O ator Flávio Migliaccio foi encontrado morto na segunda-feira, 4. Ele deixou uma carta de despedida, evidenciando o suicídio. O fato suscitou diversos questionamentos. Primeiro, a simples divulgação, já que, em geral, a imprensa não informa a causa da morte quanto esta é causada pela própria vítima. Trata-se de uma decisão antiga dos veículos de imprensa no intuito de não incentivar outros casos. A exceção é justamente quando ocorre com pessoas muito conhecidas da sociedade, pela comoção e dúvidas que o óbito gera. No caso de Flávio, que tinha 85 anos, o texto da sua carta de despedida também foi divulgado. E a família já anunciou que entrará na justiça contra o Estado porque fotos do corpo foram parar nas redes sociais.
Como jornalista e embasada em opiniões que ouvi de diferentes profissionais da área de saúde mental, entendo que os suicídios devem ser divulgados pela imprensa. O fato, mas não as histórias por trás deles. Porque apenas dando luz à quantidade absurda de casos que ocorrem e que a sociedade não sabe, entenderemos a gravidade do problema e a necessidade de investir em prevenção. O fato de desconhecermos a quantidade de suicídios que ocorrem diariamente não os faz deixar de acontecer. Mas isso não significa expor o meio como a pessoa causou o próprio óbito e toda a dor que a levou ao triste ato. Quantas pessoas, depressivas neste momento de pandemia, poderão encontrar nas palavras deste idoso o gatilho de coragem para executar ato similar? E, obviamente, nada justifica a divulgação de imagens do momento ou do corpo já sem vida.
A verdade é que nós, mesmo tentando, não somos capazes de compreender completamente a dor do outro. Só quem enterra um parente – hoje ainda tendo que seguir uma série de restrições que visam a contenção da pandemia – sabe o que sente. Assim como jamais entenderemos o que realmente faz alguém desistir de viver. Mas devemos a essas pessoas, que agora estão no plano espiritual, e aos familiares o devido respeito. Que os mortos possam descansar em paz e os vivos tenham o direito de se despedir dos que amam.

Deixe seu comentário