Na minha infância, toda vez que alguém dizia ter cuca para o café da tarde eu fazia cara feia e ia preparar um sanduíche. Cuca, para mim, era um bolo com geleia e farofa. E isso não era elogio. Você, morador do Vale do Caí, deve estar considerando isto uma afronta. Quase pecado. No mínimo, um desrespeito aos sabores germânicos. Mas saiba que afronta mesmo é o que chamam por aí de cuca. Quando fui adotada por esta terra tão fortemente abraçada pela cultura germânica, descobri o que era uma cuca de verdade ou “kuchen”, como a iguaria é chamada na região. De doce de leite, frutas ou, a minha favorita, de linguiça. Elas são deliciosas. A falsa cuca que eu conhecia até então não merecia o nome.

O Vale do Caí, tão rico em cultura, belezas e sabores, mostrou-me nos últimos cinco anos muitas maravilhas. Na minha cidade natal – Canoas – não há laços culturais tão firmes dos moradores com os povos responsáveis pela formação daquela população. Os canoenses não têm festas locais, arquitetura própria ou comidas típicas – a menos que o xis seja considerado. O Vale que hoje eu chamo de lar tem tudo isso. E o povo daqui encara este presente de uma forma tão simples que parece não compreender o valor do que tem a oferecer.

Isso me faz pensar no potencial turístico da região, extremamente mal aproveitado. Festas tradicionais, como a Oktoberfest, de Maratá, e o Festival do Chopp, da Feliz, atraem visitantes justamente pelo que a região tem de mais fabuloso: o respeito às suas tradições. Mas é bom lembrar que o interesse dos turistas pela região pode ser explorado até muito além dos grandes eventos. A cuca que encantou essa canoense aqui merece ser servida a outras pessoas que, mesmo vivendo há poucas horas de distância, não a conhecem. O nome disso é oportunidade.

A mesa, farta e saborosa, costuma ser um grande chamariz de visitantes a qualquer lugar. É também o que, no pós-viagem, traz as melhores recordações. Quem vai ao Rio de Janeiro sabe que voltar pra casa sem beber e petiscar nos bares da Lapa seria imperdoável. Conhecer Minas Gerais é sinônimo de provar cachaças, queijos e doces inesquecíveis. E quem embarca para a Ásia já imagina que lhe serão oferecidos pratos… exóticos, alguns à base de insetos. Somente provando os sabores locais é que você realmente conhece um lugar.

Visitar ou revisitar um lugar não tem relação com distâncias e, sim, com memórias. As que serão criadas ou as que já estão armazenadas. Muito em breve, nós vamos reencontrar os nossos sabores locais ao retornar a estabelecimentos que antes frequentávamos e que, há alguns meses, não conseguimos mais visitar. Dia desses, na redação do Ibiá, nós comentávamos os lugares que estão “na lista” para quando a pandemia passar. Aquele chopp da turma ao fim do expediente. O rodízio de pizza. A sequência de sushi. A pipoca do cinema. É claro que todos nós continuamos tomando o nosso chopp, comendo pizza, sushi, pipoca e tantas outras delícias seja em casa ou já frequentando os estabelecimentos que reabriram respeitando uma série de regras. Mas comer ou beber não é simplesmente ingerir algo. Há emoções que vêm junto.

A mesa do bar oferece uma cerveja diferente da degustada no sofá da sala porque ela vem acompanhada de tudo que o ambiente coletivo proporciona. Aquela pizza com amigos também fica marcada pelas gargalhadas. E por mais que a pipoca do cinema seja especial – e ela é – dividir a delícia com quem a gente ama é que faz a diferença. Os sabores do Vale me conquistaram faz alguns anos e, eu tenho certeza, vão me reconquistar logo mais, quando a quarentena for passado. E eu espero que muitos visitantes cheguem por aqui, dispostos a conhecer os nossos sabores.

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