Qualquer brasileiro minimamente sensato sentiu vergonha ao ver o então secretário de Cultura, Roberto Alvim, proferir em um vídeo, caricato e de péssimo gosto, discurso que rouba frase do ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, além de fazer outras menções de apoio. Uma delas está na trilha sonora, de Richard Wagner, a ópera “Lohengrin”, entre as sabidamente preferidas de Hitler. Diante de tamanha vergonha mundial ao Brasil, Alvim foi demitido e a atriz Regina Duarte convidada ao cargo. Mas isso não extingue as ideias de Alvim sobre “reformar” a cultura do Brasil e “salvar” a juventude. Aliás, ele só foi alçado ao posto de secretário da Cultura porque o alto escalão do governo brasileiro apóia essas ideias.
Mas essa missão, a de “transformar” a cultura brasileira, já nasce tão fracassada quanto a gestão deposta na secretaria de Cultura. É que ninguém consegue transformar cultura alguma, seja de qual for o país. Ela está no povo, na forma de viver daquela gente. E a brasileira é riquíssima, da Bossa Nova ao Funk, do Samba ao Sertanejo… isso para ficar apenas na música. Nossos artistas, assim como o povo em geral, são livres e ninguém os calará porque há gente interessada em consumir arte. E como há!
Reforcei essa ideia em uma ida a um shopping de Porto Alegre num final de semana qualquer. Era um centro de compras menor do que os mais conhecidos da Capital, com um espaço de cinema no qual são oferecidos filmes que estão fora dos grandes circuitos e longe das maiores bilheterias. As salas escuras já são, inclusive, um pouco menores. O longa escolhido para ver foi “O Farol”, que se passa início do século XX e conta a história de dois homens que, isolados, cuidam de um farol, vão se provocando e enlouquecendo. Detalhe: é em preto e branco e tem a tela quadrada. Minha surpresa: a sala lotada para ver o belo filme que, aliás, está indicado ao Oscar de Melhor Fotografia.
E se eu já fiquei feliz com a receptividade que um filme teoricamente impopular teve, meu coração bateu mais forte mesmo foi quando entrei numa livraria, gigantesca, com direito a ponte que atravessa os leitores ávidos de uma ala para outra e um dragão feito em madeira no setor infantil. Contudo, o que me encantou não foi a beleza do lugar, mas a quantidade de gente folheando livros, comentando trechos com amigos e saboreando a cultura. O estande que dava destaque às obras do educador brasileiro Paulo Freire recebia bastante atenção, prova de que não adianta atacar o conhecimento. Ele mostra sua força na forma da curiosidade e aí a verdade vem à tona.
É real que nem sempre o brasileiro tem a chance de experimentar a cultura. Principalmente as mais clássicas. E ninguém consegue apreciar aquilo que foi privado de conhecer. O brasileiro gosta sim de clássicos. Prova disso é o efeito que a novela “Bom Sucesso”, que termina hoje, na Rede Globo, causou, elevando em 5.000% a venda dos livros lidos por Alberto, vivido brilhantemente por Antonio Fagundes, ao longo do folhetim. Destaque para a belíssima sequência transmitida no final de semana passado em que, enquanto Alberto lê um trecho de “Fahrenheit 451” de Ray Bradbry, que conta a história de uma sociedade em que os livros são queimados e os leitores, punidos – sua editora pega fogo. E depois, já entre os escombros, cada funcionário se une a Alberto na garantia de que lutará para reerguer a editora e manter vivas obras como Alice no País das Maravilhas, Grande Sertão Veredas, Dom Casmurro, Peter Pan, O Tempo e o Vento, Gabriela Cravo e Canela, Crime e Castigo, Sherlock Holmes e Dom Quixote. A cultura segue forte e em ótimas mãos, a dos brasileiros, seus devidos cuidadores para todo o sempre.

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