Certa vez, uma pessoa me disse que, quando nossos pais e avós vão envelhecendo, gradual e sabiamente, Deus os faz se tornarem diferentes aos nossos olhos. Eles não lembram nem de longe os pais e avós da nossa infância, que guardamos nas recordações mais doces. Aquela pessoa ali, debilitada, não é o meu avô. O pai que antes corria com as crianças agora não tem forças nas pernas. Aquela mãe envelhecida e que já não lembra o nome dos familiares não é a mulher forte que é exemplo aos filhos. Quem me disse isso era cuidadora de meu pai, uma pessoa que ficou ao lado dele, intercalando turnos conosco, os familiares, durante meses até o seu falecimento, no final de 2014.

Naquela teoria, esse seria o meio menos doloroso que Deus encontrou para que conseguíssemos nos afastar emocionalmente daquele ente tão querido e deixá-lo partir para um lugar melhor, onde, um dia, nos reencontraremos. Lembro que naquele dia eu sorri, mas não respondi nada à cuidadora. Estava com medo de perder meu pai e não queria pensar em afastamentos físicos nem emocionais. Dias depois, numa longa madrugada de velório, eu entendi o que ela quis dizer. A despedida é uma certeza e a doença, em muitos casos, acaba nos preparando para ela.

A verdade é que nós pensamos muito mais na vida que na morte. E tem de ser assim, pelo bem da nossa saúde mental. Só que a vida se torna planejada. E a morte… acontece. Quando chegamos à idade adulta e pensamos em ter relacionamentos, casar e ter filhos – não necessariamente nesta ordem – sempre tem alguém para te avisar que, depois de se tornar mãe, a vida nunca mais será a mesma, o sono não será mais tranquilo e o passar dos anos não diminuirá as preocupações. Seu filho chegará à adolescência e você seguirá decidindo a sua vida com base nos desejos e necessidades dele. Em muitos casos – seja por vontade, instinto ou acidente – as mulheres ignoram os avisos e abraçam a maternidade. Depois, ela reclama de tudo isso. Mas ela foi avisada e teve tempo para se preparar.

Mas o filho – ou filha dela – dificilmente será avisado e preparado para quando, uns 30 ou 40 anos depois, os papéis se inverterem. Quando um bebê nasce, a gente não pensa que, décadas depois, ele será o responsável por alimentar, banhar ou trocar fraldas de um idoso. Quando nasce um bebê, nasce uma mãe. É o que dizem. Quando uma mãe envelhece, nasce um cuidador. Não te dizem, mas é a verdade. E as noites mal dormidas também ocorrerão para o filho. Não porque o idoso foi pra balada e não voltou na hora combinada, mas porque ele pode acordar desorientado e sofrer uma queda durante uma simples ida ao banheiro. Sabe a dificuldade que a mãe encontra em se dividir entre a carreira e os cuidados com a criança? Pois é, o filho também terá dificuldades em cumprir as obrigações profissionais e cuidar da mãe.

Como um relógio cuja pilha dura um tempo incerto, a vida segue. E a gente sempre tem a sensação de que poderia ter seguido por outro caminho. Não são só as mães e os pais que se sentem culpados por não ter feito tudo que quiseram pelos filhos. Não ter tido tempo o bastante. Dinheiro o suficiente. Paciência em altas doses. Quando os papéis se invertem, os filhos têm exatamente o mesmo sentimento. A diferença é que, na linha natural da vida, os pais sempre pensam que amanhã podem cumprir o que deixaram inacabado hoje, afinal, para eles, os filhos serão eternas crianças. Já os mais jovens vivem cada dia sob a ameaça do relógio parar.

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