Não. O título não se refere ao livro, mas o texto chegará à literatura logo mais. Por enquanto, trataremos de uma história nascida no interior gaúcho e que rodou o Brasil essa semana. A imagem é tão impactante que certamente atravessará muitas fronteiras. E essa é uma daquelas histórias que despertam orgulho e vergonha na mesma proporção. Orgulho do seu Odilésio Somavilla e da dona Dejanira Somavilla, agricultores do interior de Estrela Velha, pequeno município da Região Central do RS. Eles não mediram esforços para, dentro das suas possibilidades, construir uma cabana no meio de uma lavoura de soja, que serviria de sala de aula para o filho, Alan Somavilla, 11 anos. E vergonha do que causou tudo isso. A família tem residência, fruto do trabalho, onde Alan poderia estudar remotamente durante o isolamento social contra a Covid-19. Se houvesse um bom sinal de internet. Como no meio da plantação o sinal é melhor, a família improvisou o espaço para que o menino consiga estudar se protegendo do frio e da chuva.

Toda essa atitude pode ser resumida em valorização da educação. Odilésio e Dejanira sabem que este aprendizado fará toda a diferença na vida de Alan. Quando se depararam com as dificuldades, esses pais poderiam apenas ter informado à direção da escola que seu herdeiro não podia acessar as aulas por falta de internet na localidade onde moram. Mas eles querem o melhor para o filho e não cruzaram os braços. Odilésio e Dejanira sabem que somente o conhecimento dará poder de escolha a Alan. Por enquanto, este jovem afirma querer, para o futuro, ser advogado. Talvez o tempo o faça mudar de ideia e, logo ali, ele queira estudar Agronomia e dedicar-se a melhorar os cultivos pelo solo gaúcho. Ou outra ideia de carreira ainda lhe surja. Mas, independente de qual seja, ela dependerá do conhecimento. É o estudo que lhe permite sonhar com um amanhã de muitas conquistas.

Apesar de não conhecer Odilésio e Dejanira, eu os entendo bem. Sou filha de um homem que nasceu no campo e veio para a cidade. Parou de estudar na terceira série para trabalhar na lavoura. Ler e escrever eram tarefas trabalhosas, às vezes ele trocava algumas letras. Mas amava os livros e adorava me ver rodeada deles. Por não ter tido a oportunidade de estudar, com salário de motorista de ônibus fez todos os sacrifícios para que os filhos tivessem essa chance. Encampou a ideia de que, se nós quiséssemos, conseguiríamos chegar à faculdade. E assim, mesmo sem muito a oferecer financeiramente, nos deixou o maior dos legados: o estudo. Um dia, o Alan olhará para trás e perceberá que esse empenho dos seus pais fez toda a diferença na sua formação e se lembrará deles com orgulho.

É uma pena que as pessoas com poder para mudar este País não valorizem a educação como o meu pai ou os do Alan. Fosse assim, esta criança não precisaria estudar no meio da plantação porque o sinal de internet chegaria na sua casa. Afinal, mesmo com as aulas presenciais, a internet é uma ferramenta de apoio que todo estudante merece ter na hora de aprender. Mas há, ainda, outro exemplo claro.

Tramita atualmente no Congresso uma proposta de taxar os livros, hoje sem cobrança de impostos. A medida faz parte da reforma tributária idealizada por Paulo Guedes e sua equipe. A alíquota desse novo tributo seria de 12%, segundo o Ministério da Economia. Como se nós pudéssemos resolver algum problema do Brasil afastando o povo dos livros, da cultura e da educação. Infelizmente, não dá para dizer que a ideia surpreende, afinal, como todos sabemos, não é útil aos governos ter um povo esclarecido e capaz de questioná-los. Estes dois fatos – o que ocorreu no interior gaúcho e o que tramita em Brasília – dizem muito sobre as famílias brasileiras e também sobre o governo.

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