A fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, na quarta-feira, 12, pegou muita gente de surpresa. No dia em que o Dólar bateu um recorde histórico, superando R$ 4,35, o economista afirmou, categoricamente, que este não é um acaso ou uma infelicidade herdada de governos anteriores, mas é sua política econômica bem determinada.
O ministro foi taxativo: “O câmbio não está nervoso, ele mudou. Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada. Espera aí”. E sugeriu alternativas: “Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita”. E justificou que, se por um lado o câmbio está acima dos R$ 4,00; por outro, os juros também estão nessa faixa, o que beneficia empreendedores, por meio do barateamento do crédito.
Não tenho objetivo de discutir profundamente os impactos em curto e longo prazo da política econômica proposta por Guedes, embora economistas coadunem em avaliação favorável desta alteração cambial. Mas, com o passar do ano, caso não haja uma boa administração, o sistema proposto pesará no bolso do cidadão comum. Isso porque, com a taxa de câmbio alta, produtos que são commodities (cotados em Dólar), como trigo, combustível e soja, podem sofrer alteração considerável nos seus valores. Isso os economistas classificam de ‘economia em desequilíbrio’, e pode levar à alta da inflação e à redução do poder de consumo.
Mas esse não é o cerne da discussão. Apenas um contexto. Até porque políticas econômicas são mutáveis. O ponto de vista é sociológico! A fala de Guedes revela preconceito contra a classe trabalhadora brasileira. Uma postura que chega a assustar, visto que suas decisões impactam diretamente no poder de consumo do cidadão comum. Dizer que “empregada doméstica indo para Disneylândia é uma festa” sugere que a classe proletária não tem o direito de sair dos limites geográficos do seu país. Que este é um benefício reservado somente a quem pode pagar quase R$ 5,00 pelo Dólar para vestir as orelhinhas do Mickey Mouse e fugir da sua realidade, ainda que por um instante.
Claro, ministro. Viajar pelo Brasil é uma delícia. Temos lindas praias, museus a céu aberto e uma cultura de dar inveja a qualquer gringo. Particularmente sou uma grande defensora de viagens nacionais. E, de fato, elas movimentam nossa economia. Mas o buraco é muito mais embaixo, pois o ministro revela um preconceito absurdo de quem não vê no trabalhador um potencial consumidor; mas, simplesmente, mão-de-obra barata.
Com as “empregadas domésticas” (leia-se classe trabalhadora) deixando de ir para a Disney, agências de viagem deixam de vender seus pacotes, empresas de transporte deixam de levá-las até o aeroporto, gráficas deixam de produzir o material promocional, financeiras deixam de parcelar os pacotes, e tantos outros pequenos empresários deixam de ganhar. Não estou dizendo que a viagem para a Disney é a solução para a crise econômica. Mas, quando os trabalhadores têm acesso ao lazer, cultura e viagens (em que possam escolher, de fato, seu destino), temos aí um sinal de uma economia saudável. E isso, certamente, não reduz as oportunidades das classes mais altas, que podem pagar a taxa de câmbio para o seu deleite internacional, seja ela R$ 1,80 ou R$ 4,35.
Em um país com 12,6 milhões de desempregados, segundo o IBGE, e onde 41% das pessoas ocupadas estão na informalidade, certamente as férias dos trabalhadores não deveriam ser a principal preocupação do ministro da Economia. Que festa seria se as empregadas domésticas estivessem na Disney todo ano, não é mesmo?

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